piscina entrevista | Alice Yura

Conheci Alice por acaso, na ocasião da exposição GULA, individual da artista Berna Reale em exibição na Galeria Nara Roesler, e na qual ela é retratada em uma das obras (Fome de Leão, 2018). Nos poucos minutos em que conversamos, percebi que ali tinha alguém com um olhar bastante singular. Fiquei muito interessada no que ela tinha a dizer e não me saiu da cabeça a ideia de convidá-la para um café. Alguns dias depois nos encontramos e em pouco menos de duas horas Alice me contou, dentre outras coisas, sobre sua trajetória como artista transgênero no interior, sobre suas influências, sobre visibilidade e inclusão no meio da arte e acima de tudo, sobre o que acredita. Com ajuda da minha amiga e companheira de Piscina, Naly, apresentamos abaixo um resumo desse precioso encontro. - Paula

edit.jpg

Para começar, você poderia falar um pouco da sua formação e trajetória?
Me formei bacharel em artes visuais pela UFMS, e fiz uma especialização em produção em Arte Visuais e Cultura. Tô tentando produzir desde 2010, aquela coisa engatinhando. Não sou uma pessoa que tem uma produção muito frenética, ultimamente a gente tem pensado em produzir arte em cima da rapidez das mídias, rola uma massificação dos conceitos… Isso me cansa um pouco, eu gosto de fazer as coisas com calma. No momento de elaboração de um trabalho, fico muito tempo pensando. Não tenho muitos trabalhos, muito do que eu tenho em arquivo nem considero trabalho, penso como experimentação para testar como uma ideia pode funcionar.
 
E qual a sua pesquisa atual?
Basicamente o que eu pesquiso é a relação entre arte e vida, e a conexão disso ao gênero. Até um pouco óbvio. Às vezes me questiono, sobre a razão pela qual não consigo expandir meu olhar pra outras questões. Mas ao mesmo tempo é uma questão política. Se não eu, quem vai falar disso? Intimidade e política se misturam muito no meu trabalho. Tenho um pensamento muito continuo, muito fluido, e acho que não penso a mesma coisa da mesma forma sempre, apesar de ter a mesma questão por muitos anos.

Como você percebe esse amadurecimento?
Essa conexão entre arte e vida pra mim é tão fundamental porque de onde eu venho, não existe arte contemporânea. No Mato Grosso do Sul (inteiro), só tem um museu de arte contemporânea. Quando penso no meu trabalho não tenho como ignorar a minha origem.
A formação acadêmica foi fundamental pra mim porque só tive acesso a esse tipo de conhecimento na universidade. A minha ambição quando comecei o curso era ser pintora, eu queria pintar coisas belas. Não havia uma preocupação conceitual.
Em 2008, fazendo um trabalho para uma disciplina, eu descobri a performance, ali entendi que meu próprio corpo tinha potência poética e estética. Antes era tudo muito intuitivo, eu não pensava sobre isso artisticamente. Foi a partir dessa tomada de consciência que  comecei a trabalhar mesmo.
E nesse momento a questão do gênero já apareceu. Nessa época eu ainda não tinha feito a transição, e era bastante andrógina. Nos lugares, as pessoas me confundiam e eu entendia que a reação das pessoas era diferente quando me percebiam como menina ou como menino, ou quando ficavam confusas. Dessas percepções surgiram duas instalações com fotos minhas, em uma as pessoas interagiam e formavam novas coisas, na outra havia uma participação mais passiva. O olhar do outro afeta a gente de forma direta. Eu me construí como pessoa e como artista muito a partir da relação direta com o outro. Minha arte não vem do isolamento, da ideia que surge lá no meu quarto. Eu não tenho como ignorar o outro. O preconceito, a violência. Se lá na minha cidade estavam jogando lata em mim e nos meus amigos, esse outro existe e ele intervém.
Apesar da minha vida ter sido do embate, não foi da violência. Eu escolhi o embate intelectual e artístico, produzir algo relevante com isso, pra mim e pra quem está ao meu redor.

A arte que surge da experiência e a potência que ela tem de transformá-la.
A arte pra mim surge assim. Não é aquela coisa de família rica, vernissages, exposições, erudição.A minha arte veio de uma necessidade de me manter como pessoa de forma sóbria. Arte me traz sobriedade. Pensar a realidade através da arte me faz crer que a arte pode subverter as coisas de uma maneira positiva, e torná-las acessíveis.
Artista como gênio me incomoda. O cotidiano é fantástico. É o lugar onde a gente pode sonhar. Não é perfeito, mas é fantástico.

Pensando em tornar acessível, como você usa a internet e as redes sociais para o seu trabalho?
Tem duas coisas, sobre o instagram, por exemplo. Uma é as macrotendências da arte, que pra mim é chato. Todo mundo falando e fazendo coisas parecidas. Eu não sou partidária, eu faço o que eu acredito e ponto final.
A outra é o debate sobre conteúdos relevantes, e isso é legal. Acho importante um pensamento crítico sobre o que você consome no facebook e no instagram (eu não tinha insta até o final de 2017 - fiz por pressão de trabalho). Uso instagram como ferramenta, gosto de pensar no feed, como construir imagens ali. E uso muito para pesquisa. Gosto de ter informações direcionadas, nem sigo muitos amigos.

Saindo um pouco da virtualidade, como você percebe essas espacialidades -  ser artista no interior e em São Paulo?
Também vejo dois lados: por um lado sinto que tenho um pensamento menos tendencioso, menos “contaminado” -  eu não vou pensar o que as pessoas querem que eu pense. Às vezes no circuito fica tudo meio pasteurizado.
Mas trabalho no interior é muito complicado. Se em São Paulo já é difícil, lá é muito pior para uma pessoa trans. Eu gostaria muito de dar oficinas, cursos, etc, para pessoas em vulnerabilidade social. Eu tenho minha família que sempre me apoiou e ainda me apoia, sou muito grata e não esqueço disso - penso em como devolver isso pra sociedade, pra outras pessoas, fazendo o que eu sei fazer.  Em São paulo ainda tem políticas públicas que permitem isso, no interior é muito mais complicado. Eu me ofereci uma vez no CRAS [Centro de Referência de Assistência Social], pensando em estimular as pessoas a pensar e produzir a partir da sua situação, criar a partir disso. E a coordenadora me perguntou se eu não poderia ensinar a pintar pano de prato. Até sei, mas não é o que tenho de melhor pra oferecer.
Lá eu não tenho como trabalhar. Pensar em São Paulo é pensar em trabalho. Eu gostaria de trabalhar diretamente com o público trans, e em cidades menores é um público muito diminuto, ao ponto da invisibilidade mesmo.
Ao mesmo tempo, muitas vezes em São Paulo percebo que tenho mais liberdade com pessoas cis, do que trans. Aqui tem uma resistência.
Por exemplo, as meninas negras terem mais evidência acho correto. Mas eu não sou negra, sou descendente de japoneses e de origem caipira, sou do interior, do Mato Grosso do Sul - um estado que sofre um apagamento cultural. Meu lugar de fala é específico. E não vejo abertura de diálogo, para estabelecer trocas, produzir junto. Eu também não sou ninguém aqui, isso influencia. As pessoas são muito midiáticas.

Como lidar com as dissonâncias dentro de grupos minoritários?
Mesmo dentro das minorias, sinto uma disputa quanto a quem é mais minoria. Já ouvi que sou privilegiada, porque estudei em universidade federal, etc. E por isso não posso falar.
Que transfeminismo é esse? Tem uma cartilha pra ser mulher, pra ser negro, pra ser pobre, e isso impede o diálogo. Dentro das minorias a gente reproduz um autoritarismo da classe dominante - sobre a religião do outro, sobre o corpo do outro etc. Uma pessoa trans religiosa sofre preconceito de outras trans, por exemplo. Se for assim, eu não quero pertencer. A fala tem que ser transformada em contato, em acesso, não em repressão.
A sociedade é segregadora e cruel. A gente não separa pra entender as diferenças, a gente separa pra classificar o que é bom e o que é ruim (e não é por aí que deveria ser).

Mesmo dentro da minoria, ainda é preciso lutar por um espaço. Não pertencendo a um certo circuito de arte consolidado em São Paulo, e encontrando essa resistência entre a comunidade trans aqui mais organizada, como ser ouvida e manter a confiança em si mesma e no seu trabalho?

Muitas vezes é muito difícil e nem sempre me sinto forte suficiente para lidar com o sistema, com egos, etc. Porém, eu tenho uma relação muito profunda e intrínseca com a arte; isso me motiva a continuar mesmo com todos percalços. E, independente do que possa acontecer ou vir a acontecer eu sei o quanto me dedico e quanto minha vida está nos meus trabalhos, então por mais que eu não tenha grandes reconhecimentos ou esteja num nível de prestígios em relação ao que faço, eu sei que faço bem, com verdade e com muito amor. Cada pequeno passo e cada contato aprendo muito, lembro sempre de onde eu venho e dos meus privilégios, busco fazer deles não o que me separa dos outros, mas, um meio de estabelecer diálogos e pontes, como também, uma possibilidade de construir uma outra narrativa que não é a que se espera de uma mulher trans (ainda hoje). Este ano tive o prazer e a honra de participar e colaborar na produção de um trabalho da artista Berna Reale, ela queria abordar a violência contra pessoas trans no Brasil e, me ouviu com muita humildade e sensibilidade, acreditou na minha capacidade de produzir a foto e ser a performer para essa obra (Fome de Leão, 2018 - parte da mostra GULA). Talvez, essa atitude dela sirva de exemplo para tantos outros artistas, produtores e agentes de cultura; nós não somos estampas e caso haja abordagem sobre a questão ou tema trans insira legitimamente pessoas trans no trabalho, isso faz toda diferença. 

E como é possível estabelecer essas pontes?
Acabando com a hipocrisia do discurso. O contra senso e a diferença no mesmo espaço promove o diálogo e isso é fundamental. As pessoas tem que parar de querer ser celebridades, vamos ser gente. Chega de simulacro. Sair da virtualidade. A realidade pertence a todos, e é necessário ouvir o outro. Isso é ter uma vida compartilhada de verdade. Compartilhar na rede é outra coisa, muito mais cômoda.
Menos demagogia dentro dos movimentos sociais, dentro da arte. O momento no Brasil é muito triste, não tem como se isolar.
Esses dias eu estava em uma conversa sobre lugares específicos para pessoas trans. Se eu for num lugar, e minha mãe não puder entrar, meus amigos e amigas não puderem entrar, esse lugar exclusivo, a esse lugar eu não pertenço. E isso não me deslegitima como uma pessoa trans. Eu quero ser uma pessoa trans no mundo. Que tem o respeito e que respeita as pessoas.
Acho que artistas trans na música e no teatro (que são mais populares e acessam mais o público) poderiam também abrir portas para pessoas trans das artes visuais, e não vejo esse movimento.

Como você vê as políticas de inclusão no mundo da arte?
Acho que o tempo vai dizer. Se a inclusão é genuína, ela vai colocar e manter as pessoas em um lugar. O artista negro ou trans vai sumir daqui a um ano? Se o debate esfriar? Mesmo se feito com oportunismo, acho que as pessoas beneficiadas devem ter inteligência e um posicionamento concreto em relação a isso. Se querem me usar pra fazer mídia, eu vou usar o espaço de vocês pra incluir mais gente. Essas pessoas devem ser ativas: exigir minorias na produção, por exemplo. Discurso sem prática é palanque, demagogia. Eu não quero palanque. E quero construir uma base sólida para o meu trabalho, de pertencimento. Para mim e pra outras. É o que tento fazer.
Eu poderia ter vindo pra São Paulo, feito programa, e com essa grana ter financiado uma exposição. Mas eu não quero. Eu tenho direito de recusar esse lugar -não porque não seja digno, mas porque eu não quero.
Às vezes o trabalho de uma artista trans ainda não é o mais maduro, ainda não é o melhor. Mas ninguém começa sendo o melhor, e essas pessoas precisam começar de algum lugar.
Eu acredito que uma menina trans na prostituição pode ter expressão poética. Tem como dizer que o trabalho do Bispo do Rosário (que passou quase a vida toda num hospício) não tem potência? Hoje ele está ai, sabe? Não é só por mim. Quando eu falo em representatividade em museu, por exemplo.

Quais são suas principais referências na arte?
Me dei conta que, intuitivamente, as principais são mulheres.
Yoko Ono, Yayoi Kusama, Orlan, Frida (ela é inegável, como mistura trabalho e vida), Márcia X. tenho visto bastante, e acho porreta. Berna Reale, Adriana Varejão, Rosângela Rennó. Tomi Otahke me emociona muito. Priscila Pessoa, do Mato Grosso do Sul, que foi minha professora e ainda é minha diva.
A Hanna Ahrendt tem essa frase, ela fala que o ser humano é um ser condicionado, e tudo com que ele toma contato acaba se tornando condição de sua existência. E eu sinto muito isso na arte, tudo me toca ou me inspira de alguma forma. Mas as mais notáveis são mulheres mesmo.

ateliê #2 | Fernanda Vallois

Em uma noite de sábado, a designer e fotógrafa carioca Fernanda Vallois nos recebeu na sua casa em São Paulo e falou sobre seus processos de trabalho, sua relação com a fotografia comercial e autoral, e com as pessoas que fotografa. Alguns trechos da nossa conversa estão aqui:

vallois8.jpg

P: Você é formada em design, certo? Trabalha com isso atualmente?
F: Eu trabalho freelancer. Faço design, site, estampa, foto, vídeo. Eu gosto porque eu sempre gostei de fazer muitas coisas, e aí eu posso explorar tudo. Eu gosto muito de trabalhar sozinha em casa, trabalho muito de madrugada. Acho que tem um silencio, uma vibração boa. Troco muito a noite pelo dia. Mas a fotografia tem isso que me obrigar a sair de casa, a trocar com as pessoas... o design é meio solitário. E a foto tem a tensão do momento, se você não capta na hora, não está ali e pronto. E no design, se você quiser, o trabalho é infinito.
 

vallois7.jpg

P: Qual a diferença do seu trabalho comercial e do seu trabalho autoral com fotografia?
F: Quando comecei a fazer comercial acho que isso atrapalhou um pouco meu trabalho autoral. Porque eu fazia muito no feeling, só analogico, e muita coisa saia “errada”, e eu adorava. Agora trabalhando com o digital comercialmente, isso me trouxe uma preocupação mais técnica que eu não tinha. Que mesmo quando eu tento ficar mais solta de novo, sinto que não consigo voltar mais àquele lugar, àquela liberdade. Às vezes eu acho que o meu melhor trabaho eu já fiz, que é esse do começo.

P: Como era o seu processo nesses primeiros trabalhos?
F: Sempre partia do meu interesse em fotografar uma pessoa específica. Eram ensaios mais ou menos montados (eu encontrava um lugar e sabia mais ou menos o que queria fazer).
Mas mesmo gostando dessas fotos hoje em dia, na hora eu sempre fico com a sensação de que tudo saiu uma merda... Aí eu dou um tempo, e acabo gostando só depois.

P: A tua inspiração parece sempre vir da realidade – de pessoas e lugares que você encontra.
F: Na adolescência eu era muito fechada, não tinha amigos. Eu tinha vontade, mas eu era tímida, insegura, e não conseguia. De uns cinco ou seis anos pra cá, eu sinto que tenho conseguido me conectar até fácil com as pessoas. Hoje em dia até me chamam de “galerosa”, alguém que está sempre com muitas pessoas. Eu presto muita atenção nas pessoas, e acho que elas ficam confortáveis comigo hoje em dia.
Embora essa mudança tenha me feito bem, eu acho que essa estranheza que eu tinha, essa coisa sem casca, era interessante pro trabalho. Tento buscar um pouco disso no meu trabalho hoje em dia.
Eu não tenho uma resposta, por que eu faço as coisas que eu faço. Mas acho que tem a ver com essa criança que eu fui, tímida, com poucos amigos, e que odiava ser fotografada. Acho que tá tudo ali no meu trabalho. E eu sempre acabo fotografando pessoas como eu, mulheres, da minha idade. Também me pergunto o que isso quer dizer.

vallois4.jpg

P: Como é seu ritmo de trabalho? Você se cobra muito nesse sentido?
F: Eu me cobro muito, mas não tenho um padrão. Ano passado eu não consegui fazer muito trabalho autoral, e pensei “poxa, eu preciso me dar esse espaço”. Esse ano eu tô nessa onda, de exercitar mais as coisas que eu quero desenvolver no meu trabalho. Eu não tenho uma frequência estabelecida, funciona mais assim: às vezes me dá um desespero, e eu tenho que fotografar.

P: Você já sentiu alguma dificuldade relacionada a gênero na carreira?
F: Ser mulher lésbica nunca me atrapalhou, antes dessas discussões virem a tona eu nem pensava nisso. Acho que tive sorte de ter muitos amigos e trabalhar num meio onde sou aceita, respeitada. Mas no geral, eu nunca senti tanto isso, e agora na verdade eu tenho sentido os benefícios do discurso feminista, dos movimentos de inclusão, etc -  talvez antes eu não sentisse porque eu não era nem considerada. Então nesse momento tá sendo ótimo. Marcas femininas tem buscado essa coerência de ter mulheres por trás das campanhas, por exemplo.

P: Você planeja a sua carreira artística? Como se vê no futuro?
F: Eu vou muito com o flow. Não me esforço pra estar no meio das artes, em uma galeria, etc. Eu coloco a minha energia em criar e as coisas vão acontecendo. Essa coisa de galeria tem uma seriedade que eu não sei se eu quero, fica mais pesado. Eu me sinto mais híbrida, misturo muito pessoal com comercial, design, arte, fotografia. Eu não me vejo só em um meio específico. Gosto de fotolivro, mas não me vejo tanto nesse mundo do fotolivro, entende?
Eu não penso muito a longo prazo, “vou desenvolver um assunto por um tempo”. Acho que o meu trabalho tem uma consistência, as coisas acabam se conversando, fazendo sentido. Mas eu nunca planejei tanto isso. Agora tenho pensado em
persistir em um assunto por mais tempo, acompanhar alguma coisa de fato. Quero ficar fotografando os frequentadores da Turma OK, que é uma boate gay no rio, por um período maior.

P: Que são pessoas que você não conhece.
F: Eu tava ouvindo a Annie Leibovitz e ela tava falando “eu não acredito que o trabalho do fotógrafo é deixar alguém a vontade”. Em parte é algo que eu tento fazer, mas eu acredito nisso no sentido que você vai trabalhar com o que a pessoa te der, mas você não vai transformar ela em outra coisa. Eu não super dirijo as pessoas, alguns fotógrafos são super cênicos, dirigem as pessoas como bonecos “faz isso, faz aquilo”. Eu sugiro algumas coisas, mas prefiro que seja mais orgânico.

P: É legal pensar o teu trabalho a partir disso. Que você não tem essa postura diante da fotografada: “fica tranquila, eu tenho tudo sob controle”. Você também tá tensa, tem duas tensões em jogo.
F: Eu tenho que tomar coragem de ir lá fotografar a pessoa. E nem tem a ver com intimidade. Eu não consigo fotografar a minha namorada agora, por exemplo. Mas eu tento não fugir. É tenso, mas eu não quero deixar de fazer. Eu vivo nessa luta.
Tem gente que se entrega muito, e tem gente que é mais desafiadora. Em trabalho comercial eu sinto muito isso. Tem as modelos, que sabem como se comportar diante da câmera (a nova geração se conhece muito, cresceu se fotografando, fazendo selfie, tem domínio sobre o corpo e a própria imagem).
Em trabalho comercial eu sentia mais a tensão de me sentir amadora. Depois eu fui aprendendo mais, sobre iluminação, equipamentos, e ajudou muito a dar mais segurança.

P: Voltamos a essas polaridades Digital X Analógico, Comercial X Autoral.
F: Às vezes enquanto tô trabalhando eu tento separar um pouco: isso aqui é mais editorial, isso aqui é mais um retrato. Mas às vezes se mistura. No fim eu acho que o que é mais forte pra mim é o trabalho mais autoral. Eu me sinto um pouco aprisionada com o digital. Ajustes de foco, luz, etc. Com o analógico eu me solto mais, não vejo o que tô fazendo, ele favorece essa liberdade. Me protege de mim (eu fico mais intuitiva) e a pessoa que eu tô fotografando também. Ela fica mais confortável, porque sabe que eu não tô ali avaliando o trabalho no visor da câmera o tempo todo.
Eu acho a minha linguagem mais podrona (o desfoque, o “erro”), difícil de comercializar. Então é um desafio meu agora, incorporar essas coisas, me colocar mais ali, no trabalho que eu faço pros outros.
 

exercício de curadoria: hysteria

A Hysteria é uma plataforma feita por mulheres, sobre mulheres e para mulheres, que a Piscina tem a honra de fazer parte. Durante todos os meses de 2018, a Piscina fará uma curadoria especial para o Instagram da Hysteria, com imagens de obras das artistas da Pisci, a partir de um tema proposto por nós. 

Em janeiro, o tema foi Corpo:

a dor, o dorso, a pele, o osso.
a carga de vida.

o corpo feminino se oferece à imagem: três poses.

e uma obra que, aqui, por contraste, parece comentar:

mas não esqueça do corpo da mulher padronizado, fragmentado, despersonalizado, substituível.

Captura de Tela 2018-02-27 às 08.57.30.png
Captura de Tela 2018-02-27 às 08.57.44.png
Captura de Tela 2018-02-27 às 08.57.54.png

E esta semana saiu o tema de fevereiro, Panorama:

Captura de Tela 2018-02-28 às 09.09.50.png

vastidão a ser explorada, vivida.
ver e ser o mundo através do seu próprio horizonte.
a linha
que separa o céu da terra, do mar.
a linha
que separa o resto do universo de si mesmo.
o horizonte-elástico
moldado pelo tempo, pelas circunstâncias.
ora se retrai e é tão restrito, ora se expande e ganha mundo.

 

Captura de Tela 2018-02-28 às 09.10.03.png
Captura de Tela 2018-02-28 às 09.10.48.png

Estamos curtindo tanto o exercício e os temas que têm surgido, que a vontade é de desdobrar esta experiência em outras coisas, seja um fôlego, uma mini-publicação ou exposição. 

Tem sido muito bacana, no sentido de que nós três (Paula, Nataly e Ana) fazemos uma curadoria-relâmpago, o que nos interessa bastante como exercício. Tudo acontece online e à distância, o que lembra os primórdios da Piscina, em 2015, e já faz parte da essência do nosso projeto.

"Por que não houve grandes mulheres artistas?" de Linda Nochlin

Dentre outras coisas, aqui no blog da Piscina iremos compartilhar ensaios, artigos, livros e notícias que trocamos entre nós em nossas conversa online. Como muita coisa acaba se perdendo, resolvemos deixar algumas destas leituras reunidas e registradas aqui para que mais gente possa ter acesso e também para que nós possamos consultar eventualmente. A ideia é inclusive deixar o canal aberto para que amigas, conhecidas e artistas possam compartilhar suas leituras e que possamos criar um banco de textos relevante e acessível. 

piscina-textos-linda-nochlin-ediçoesaurora1.jpg

Para inaugurar o primeiro textos da Piscina, começaremos com o artigo Por que não houve grandes mulheres artistas?, de Linda Nochlin. Até maio de 2016, o texto escrito originalmente em 1971, na ARTnews, não tinha sido traduzido para o português. Felizmente, a edições Aurora editou e publicou o artigo, que teve tradução de Juliana Vacaro (autorizada e festejada pela autora).  

Em seu texto Linda Nochlin pontua que a pergunta "Por que não houve grandes mulheres artistas?" esconde a verdadeira natureza da questão e já pressupõe a própria resposta. Segundo a autora, nossa percepção de como as coisas são no mundo está condicionada e deturpada pela forma como enunciamos as questões e cabe a nós nos perguntarmos quem está formulando essas questões e a que propósito elas servem.

Deste modo a questão das mulheres nas artes não deve ser vista pelos olhos de uma elite dominante masculina, mas no lugar disso, "as mulheres devem se conceber potencialmente - se não efetivamente - como sujeitos iguais, e devem estar dispostas a olhar para os fatos de sua condição cara a cara, sem vitimização ou alienação".

Segundo Linda, de fato não houve nenhuma grande mulher artista como "não houve também nenhum grande pianista de jazz lituano ou um grande tenista esquimó, e não importa o quanto queríamos que tivesse existido. [...] não existem mulheres equivalentes a Michelangelo, Rembrandt, Delacroix, Cézanne, Picasso ou Matisse, ou mesmo nos tempos recentes a Kooning ou Warhol, assim como não há afroamericanos equivalentes aos mesmos." Se existissem, pelo que então as feministas estariam lutando?

As coisas nas artes e em outras áreas são desestimulantes e opressivas "para todos aqueles que, assim como as mulheres, não tiveram a sorte de nascer brancos, preferencialmente de classe média e acima de tudo homens", diz a autora. E o problema não estaria em nossos hormônios ou qualquer outro traço biológico ou psicológico, mas sim nas instituições e em nossa educação. 

As concepções falsas envolvidas na pergunta "por que não houve grandes mulheres artistas?" destacam suposições ingênuas e distorcidas sobre o fazer artístico, dentre as quais Linda aponta a mitologia do "Grande Artista", - o ser único, precoce, dotado de um grande talento e uma aura mágica -, como sendo uma das principais. Esse tipo de mitologia do gênio artístico deixa em segundo plano as influências sociais, contexto histórico e estruturas institucionais nas quais o artista tenha vivido e contribui para a "naturalização" da concepção de que a falta de êxito das mulheres nas artes se dá pois estas não possuem talento para a arte.

Caso fossem avaliadas as reais condições na qual a produção de arte se deu, perguntas mais interessantes poderiam ser feitas, tais como: de que classes sociais era proveniente a maior parte dos artistas em diferentes momentos históricos? Qual é a proporção de artistas que veio de famílias nas quais seus pais ou parentes próximos eram artistas? Por que  não houve grandes artistas oriundos da aristocracia? 

Considerando que as habilidades ou inteligências são construídas desde o momento em que uma criança vem ao mundo, caberia aos estudiosos e historiadores de arte abandonar a noção de que a grande arte provém do gênio individual com habilidades inatas e examinar que o contexto social e os elementos da estrutura social determinados por instituições específicas, pressupõem o desenvolvimento, a natureza e a qualidade do fazer artístico.  . 

Vale muito a pena a leitura! 

Você pode fazer o download do pdf ou adquirir a versão imprensa por apenas 8 reais aqui neste link

Paula

ateliê #1 | Giulia Puntel

Esta é a primeira de uma série de visitas à ateliês e entrevistas em que o objetivo é conhecer as artistas que fazem parte da Piscina e se aproximar de seu processo de trabalho. Em um sábado nublado, conhecemos a Giulia Puntel, que nos abriu sua casa, falou do seu desenvolvimento de pesquisa mais recente, processo de trabalho e de suas referências. Compilamos aqui alguns trechos da nossa conversa:

IMG_7600_web.jpg

Piscina: Você pode contar pra gente um pouco sobre a sua formação, suas experiências?

Giulia Puntel: Me formei em Artes Plásticas na escola Guignard - UEMG, em Belo Horizonte, fiz artes plásticas mas queria ter feito cinema, então desde o início comecei a trabalhar com isso, trabalhei um ano em uma produtora e depois que saí de lá tive um envolvimento direto com o cinema independente que estava sendo feito em Minas, daí até hoje to nessa rs. Ainda não consegui fazer um trabalho meu que juntasse essas duas linguagens, mas tenho projetos, ideias, vontades...alguma hora elas vão se convergir. Mas posso dizer que a maior parte das minhas pinturas surgiram a partir de filmes que vi, ou de sensações que tive a partir de algum. 
Me mudei pra SP no início desse ano pra ter um contato maior com a pintura, os artistas, galerias, museus e está tudo rolando, acontecendo no tempo que tem que acontecer mesmo. 

IMG_7570_web.jpg

Piscina: Como você percebe a mulher no cenário artístico hoje?

Giulia Puntel: Eu sinto que muitas mulheres acabam ficando nesse lugar mais seguro da ilustração, que é o lugar do saber fazer, da técnica. Eu adoro ilustração, ilustro também e vários artistas que eu adoro são ilustradores. Mas eu gostaria de ver mais mulheres desenvolvendo. Arte é cutucar a ferida. Sinto que às vezes é falta de pegar na mão e falar: Você pode mais. Vamos juntas, vamos estudar. Não para aqui, esse é só o primeiro passo.

Piscina: Qual a sua pesquisa atual?

Giulia Puntel: Eu estou numa pesquisa sobre opacidade. Antes eu tava pensando muito sobre distopia - usando essas figuras humanas que eu sempre uso e pensando no futuro, mas ao mesmo tempo falando sobre mim, sobre como eu me sinto diante do mundo. Aí comecei a falar sobre disfarce e brevidade das coisas. Essas naturezas mortas e as flores ensacadas tem a ver com isso. Gosto muito da estranheza. Eu tenho muito medo de certezas, de pessoas que sabem de tudo. Eu vejo a pintura no lugar do questionamento, do olhar e não saber. Da sensação. O que eu tenho tentado fazer é sempre colocar uma carga de sensação na minha pintura, uma sensação que eu tenho com a vida.

IMG_7586_web.jpg

Piscina: Como é o seu processo de criação?

Giulia Puntel: Não existe uma regra de como ser artista. Eu tô há quatro meses só pintando, e aí rola uma culpa. Quando tá tudo certo: eu só preciso produzir. Mas acho que essa culpa vai rolar sempre, ainda mais quando você ainda não tem uma validação, não é de uma galeria, etc. Eu acho que com pintura você tem que estar ali todo dia. Mesmo que você não pinte, só lave um pincel. Mas você tem que estar ali. Inspiração existe, mas ela precisa do seu ritmo.

Quais artistas você citaria como referências para o seu trabalho?

Giulia Puntel: Rothko (meu sonho ver ao vivo - conheço gente que viu e desabou de chorar. Ao vivo dá pra sentir a energia, tem uma misticidade. A carga que o pintor coloca ali importa).
Jenny Saville era alguém pra quem eu olhava muito quando comecei a pintar. Sinto que estou me distanciando um pouco dela, mas ainda é alguém forte pra mim.
Michaël Borremans, Adrian Ghenie, Eduardo Berliner e Lynette Yiadom-Boakye também são grandes referências - olho sempre.
Fora isso,  me inspiro totalmente no cinema e nos filmes que vejo. Ultimamente tenho visto a obra da Chantal Akerman, da Claire Denis, revisto filmes do Apichatpong, Jem Cohem e do Leos Carax, além da poesia que cada filme tem, to sempre olhando pra fotografia, afinal daí que vem várias das imagens que levo depois para a pintura.