ateliê #2 | Fernanda Vallois

Em uma noite de sábado, a designer e fotógrafa carioca Fernanda Vallois nos recebeu na sua casa em São Paulo e falou sobre seus processos de trabalho, sua relação com a fotografia comercial e autoral, e com as pessoas que fotografa. Alguns trechos da nossa conversa estão aqui:

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P: Você é formada em design, certo? Trabalha com isso atualmente?
F: Eu trabalho freelancer. Faço design, site, estampa, foto, vídeo. Eu gosto porque eu sempre gostei de fazer muitas coisas, e aí eu posso explorar tudo. Eu gosto muito de trabalhar sozinha em casa, trabalho muito de madrugada. Acho que tem um silencio, uma vibração boa. Troco muito a noite pelo dia. Mas a fotografia tem isso que me obrigar a sair de casa, a trocar com as pessoas... o design é meio solitário. E a foto tem a tensão do momento, se você não capta na hora, não está ali e pronto. E no design, se você quiser, o trabalho é infinito.
 

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P: Qual a diferença do seu trabalho comercial e do seu trabalho autoral com fotografia?
F: Quando comecei a fazer comercial acho que isso atrapalhou um pouco meu trabalho autoral. Porque eu fazia muito no feeling, só analogico, e muita coisa saia “errada”, e eu adorava. Agora trabalhando com o digital comercialmente, isso me trouxe uma preocupação mais técnica que eu não tinha. Que mesmo quando eu tento ficar mais solta de novo, sinto que não consigo voltar mais àquele lugar, àquela liberdade. Às vezes eu acho que o meu melhor trabaho eu já fiz, que é esse do começo.

P: Como era o seu processo nesses primeiros trabalhos?
F: Sempre partia do meu interesse em fotografar uma pessoa específica. Eram ensaios mais ou menos montados (eu encontrava um lugar e sabia mais ou menos o que queria fazer).
Mas mesmo gostando dessas fotos hoje em dia, na hora eu sempre fico com a sensação de que tudo saiu uma merda... Aí eu dou um tempo, e acabo gostando só depois.

P: A tua inspiração parece sempre vir da realidade – de pessoas e lugares que você encontra.
F: Na adolescência eu era muito fechada, não tinha amigos. Eu tinha vontade, mas eu era tímida, insegura, e não conseguia. De uns cinco ou seis anos pra cá, eu sinto que tenho conseguido me conectar até fácil com as pessoas. Hoje em dia até me chamam de “galerosa”, alguém que está sempre com muitas pessoas. Eu presto muita atenção nas pessoas, e acho que elas ficam confortáveis comigo hoje em dia.
Embora essa mudança tenha me feito bem, eu acho que essa estranheza que eu tinha, essa coisa sem casca, era interessante pro trabalho. Tento buscar um pouco disso no meu trabalho hoje em dia.
Eu não tenho uma resposta, por que eu faço as coisas que eu faço. Mas acho que tem a ver com essa criança que eu fui, tímida, com poucos amigos, e que odiava ser fotografada. Acho que tá tudo ali no meu trabalho. E eu sempre acabo fotografando pessoas como eu, mulheres, da minha idade. Também me pergunto o que isso quer dizer.

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P: Como é seu ritmo de trabalho? Você se cobra muito nesse sentido?
F: Eu me cobro muito, mas não tenho um padrão. Ano passado eu não consegui fazer muito trabalho autoral, e pensei “poxa, eu preciso me dar esse espaço”. Esse ano eu tô nessa onda, de exercitar mais as coisas que eu quero desenvolver no meu trabalho. Eu não tenho uma frequência estabelecida, funciona mais assim: às vezes me dá um desespero, e eu tenho que fotografar.

P: Você já sentiu alguma dificuldade relacionada a gênero na carreira?
F: Ser mulher lésbica nunca me atrapalhou, antes dessas discussões virem a tona eu nem pensava nisso. Acho que tive sorte de ter muitos amigos e trabalhar num meio onde sou aceita, respeitada. Mas no geral, eu nunca senti tanto isso, e agora na verdade eu tenho sentido os benefícios do discurso feminista, dos movimentos de inclusão, etc -  talvez antes eu não sentisse porque eu não era nem considerada. Então nesse momento tá sendo ótimo. Marcas femininas tem buscado essa coerência de ter mulheres por trás das campanhas, por exemplo.

P: Você planeja a sua carreira artística? Como se vê no futuro?
F: Eu vou muito com o flow. Não me esforço pra estar no meio das artes, em uma galeria, etc. Eu coloco a minha energia em criar e as coisas vão acontecendo. Essa coisa de galeria tem uma seriedade que eu não sei se eu quero, fica mais pesado. Eu me sinto mais híbrida, misturo muito pessoal com comercial, design, arte, fotografia. Eu não me vejo só em um meio específico. Gosto de fotolivro, mas não me vejo tanto nesse mundo do fotolivro, entende?
Eu não penso muito a longo prazo, “vou desenvolver um assunto por um tempo”. Acho que o meu trabalho tem uma consistência, as coisas acabam se conversando, fazendo sentido. Mas eu nunca planejei tanto isso. Agora tenho pensado em
persistir em um assunto por mais tempo, acompanhar alguma coisa de fato. Quero ficar fotografando os frequentadores da Turma OK, que é uma boate gay no rio, por um período maior.

P: Que são pessoas que você não conhece.
F: Eu tava ouvindo a Annie Leibovitz e ela tava falando “eu não acredito que o trabalho do fotógrafo é deixar alguém a vontade”. Em parte é algo que eu tento fazer, mas eu acredito nisso no sentido que você vai trabalhar com o que a pessoa te der, mas você não vai transformar ela em outra coisa. Eu não super dirijo as pessoas, alguns fotógrafos são super cênicos, dirigem as pessoas como bonecos “faz isso, faz aquilo”. Eu sugiro algumas coisas, mas prefiro que seja mais orgânico.

P: É legal pensar o teu trabalho a partir disso. Que você não tem essa postura diante da fotografada: “fica tranquila, eu tenho tudo sob controle”. Você também tá tensa, tem duas tensões em jogo.
F: Eu tenho que tomar coragem de ir lá fotografar a pessoa. E nem tem a ver com intimidade. Eu não consigo fotografar a minha namorada agora, por exemplo. Mas eu tento não fugir. É tenso, mas eu não quero deixar de fazer. Eu vivo nessa luta.
Tem gente que se entrega muito, e tem gente que é mais desafiadora. Em trabalho comercial eu sinto muito isso. Tem as modelos, que sabem como se comportar diante da câmera (a nova geração se conhece muito, cresceu se fotografando, fazendo selfie, tem domínio sobre o corpo e a própria imagem).
Em trabalho comercial eu sentia mais a tensão de me sentir amadora. Depois eu fui aprendendo mais, sobre iluminação, equipamentos, e ajudou muito a dar mais segurança.

P: Voltamos a essas polaridades Digital X Analógico, Comercial X Autoral.
F: Às vezes enquanto tô trabalhando eu tento separar um pouco: isso aqui é mais editorial, isso aqui é mais um retrato. Mas às vezes se mistura. No fim eu acho que o que é mais forte pra mim é o trabalho mais autoral. Eu me sinto um pouco aprisionada com o digital. Ajustes de foco, luz, etc. Com o analógico eu me solto mais, não vejo o que tô fazendo, ele favorece essa liberdade. Me protege de mim (eu fico mais intuitiva) e a pessoa que eu tô fotografando também. Ela fica mais confortável, porque sabe que eu não tô ali avaliando o trabalho no visor da câmera o tempo todo.
Eu acho a minha linguagem mais podrona (o desfoque, o “erro”), difícil de comercializar. Então é um desafio meu agora, incorporar essas coisas, me colocar mais ali, no trabalho que eu faço pros outros.