artistas-curadoras na 33a Bienal de São Paulo [série] - 4 de 4

No último post da série sobre as artistas-curadoras convidadas pelo curador da 33a Bienal de São Paulo, Gabriel Perez Barreto, falaremos sobre a artista Wura-Natasha Ogunji e sua proposta para a mostra "Afinidades Afetivas". 

Wura-Natasha Ogunji (África do Sul, 1984) vive entre Austin (EUA) e Lagos (Nigéria). Seu trabalho transita entre desenhos, vídeos e performances. Seus desenhos feitos em grafite, tinta e bordados à mão sobre papel vegetal são inspirados nas interações cotidianas que ocorrem na cidade de Lagos, das mais íntimas às mais extraordinárias. Já suas performances, exploram a presença feminina no espaço público e tratam de questões como trabalho, lazer, liberdade e banalidades.

Em The Kissing Mask, performance de 2016, a artista tem como ponto de partida a questão “Who are you kissing when you kiss a mask?”[Quem você está beijando quando beija uma máscara?]. A máscara é usada para interromper as expectativas do espectador, uma ruptura nos modos de interação que conhecemos e nos são familiares. Parafraseando a artista, a máscara oferece experiências separadas, de outro mundo, não legitimadas, que abrem um espaço dentro das formas usuais de interação. 

Com o título sempre, nunca a proposta de Ogunji para a Bienal apresenta um diferencial: é composta somente por obras comissionadas especialmente para a mostra, feitas apenas por artistas mulheres que criarão trabalhos através de um processo curatorial colaborativo e horizontal. As artistas convidadas são: Lhola Amira (África do Sul, 1984), Mame-Diarra Niang (França, 1982), Nicole Vlado (EUA, 1980), ruby onyinyechi amanze (Nigéria, 1982) e Youmna Chlala (Líbano, 1974), que segundo Ogunji, têm uma produção que, assim como em seu trabalho, “concilia aspectos íntimos (como corpo, memória e gesto) a épicos (arquitetura, história, nação)”.

 

 

artistas-curadoras na 33a Bienal de São Paulo [série] - 3 de 4

Já falamos sobre as propostas curatoriais e sobre as obras de Claudia Fontes e Mamma Andersson e no terceiro post da série sobre as artistas-curadoras da próxima edição da Bienal Internacional de São Paulo, falaremos da trajetória e da proposta da artista Sofia Borges

Sofia Borges nasceu em Ribeirão Preto (1984) e atualmente vive entre São Paulo e Paris. Formou-se em Artes Visuais pela Universidade de São Paulo em 2008 e nos anos que se seguiram à conclusão do curso, recebeu inúmeras premiações (para ver o cv completo da arista clique aqui) e já em 2012 era a  a artista mais jovem a ser convidada para participar da 30a Bienal de São Paulo. A artista já teve mostras individuais em Paris, Lisboa, Amsterdã, Viena, São Paulo e Cidade do México além de ter trabalhos apresentados em coletivas no Brasil, nos EUA, na França China e no Qatar. The Swamp [O Pântano], livro autoral que desenvolveu com base na exploração de cavernas pré-históricas no Sul da França, ganhou o First Book Award e foi lançado junto a uma individual na PhotoLondon 2016. 

A obra de Sofia Borges envolve questões sobre a representação e trata da relação entre matéria e significado. Tendo a fotografia como linguagem principal, a artista busca em seus trabalhos, extrair os pontos de contato que a imagem pode ter com o real, com o mundo. Em sua pesquisa, as fotografias são ponto de partida, tornam-se matéria-prima de um longo processo em que as imagens assumem diferentes papéis de acordo com contextos específicos. 

Abaixo, uma seleção de trabalhos e vistas de exposições da artista:

 

A infinita história das coisas ou o fim da tragédia do um, proposta de Sofia Borges para a 33a Bienal de São Paulo, tem como ponto de partida interpretações sobre a tragédia grega para investigar os limites da representação. Em seu projeto expositivo, uma seleção de peças específicas estarão lado a lado com obras comissionadas de Jennifer Tee (Holanda, 1973), Leda Catunda (Brasil, 1961), Sarah Lucas (UK, 1962) e Tal Isaac Hadad (França, 1976), entre outros. Segundo a divulgação da Bienal, uma das particularidades da proposta de Borges está nas ativações que ocorrerão ao longo da duração da mostra. 

Abaixo, obras de alguns dos artistas convidados por Sofia para integrar sua proposta:

 

 

piscina na harper's bazaar

É sempre uma surpresa muito boa quando recebemos um email de alguém interessado na Piscina e querendo espalhar o trabalho das artistas por aí. Mês passado foi o Felipe Stoffa, editor da seção de arte da Harper's Bazaar Brasil que entrou em contato com a gente. 

Além de responder a uma entrevista, o Felipe nos pediu para fazer uma seleção de obras de algumas meninas da plataforma que lidam com corpo, gênero e sexualidade, já que a revista como um todo estava pautada pela temática do "erótico".

O resultado foi uma matéria bem bacana, com destaque para o trabalho de quatro artistas: Luisa Gallegari, Jade Marra, Fernanda Liberti e Gabriela Silveira:

ateliê #2 | Fernanda Vallois

Em uma noite de sábado, a designer e fotógrafa carioca Fernanda Vallois nos recebeu na sua casa em São Paulo e falou sobre seus processos de trabalho, sua relação com a fotografia comercial e autoral, e com as pessoas que fotografa. Alguns trechos da nossa conversa estão aqui:

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P: Você é formada em design, certo? Trabalha com isso atualmente?
F: Eu trabalho freelancer. Faço design, site, estampa, foto, vídeo. Eu gosto porque eu sempre gostei de fazer muitas coisas, e aí eu posso explorar tudo. Eu gosto muito de trabalhar sozinha em casa, trabalho muito de madrugada. Acho que tem um silencio, uma vibração boa. Troco muito a noite pelo dia. Mas a fotografia tem isso que me obrigar a sair de casa, a trocar com as pessoas... o design é meio solitário. E a foto tem a tensão do momento, se você não capta na hora, não está ali e pronto. E no design, se você quiser, o trabalho é infinito.
 

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P: Qual a diferença do seu trabalho comercial e do seu trabalho autoral com fotografia?
F: Quando comecei a fazer comercial acho que isso atrapalhou um pouco meu trabalho autoral. Porque eu fazia muito no feeling, só analogico, e muita coisa saia “errada”, e eu adorava. Agora trabalhando com o digital comercialmente, isso me trouxe uma preocupação mais técnica que eu não tinha. Que mesmo quando eu tento ficar mais solta de novo, sinto que não consigo voltar mais àquele lugar, àquela liberdade. Às vezes eu acho que o meu melhor trabaho eu já fiz, que é esse do começo.

P: Como era o seu processo nesses primeiros trabalhos?
F: Sempre partia do meu interesse em fotografar uma pessoa específica. Eram ensaios mais ou menos montados (eu encontrava um lugar e sabia mais ou menos o que queria fazer).
Mas mesmo gostando dessas fotos hoje em dia, na hora eu sempre fico com a sensação de que tudo saiu uma merda... Aí eu dou um tempo, e acabo gostando só depois.

P: A tua inspiração parece sempre vir da realidade – de pessoas e lugares que você encontra.
F: Na adolescência eu era muito fechada, não tinha amigos. Eu tinha vontade, mas eu era tímida, insegura, e não conseguia. De uns cinco ou seis anos pra cá, eu sinto que tenho conseguido me conectar até fácil com as pessoas. Hoje em dia até me chamam de “galerosa”, alguém que está sempre com muitas pessoas. Eu presto muita atenção nas pessoas, e acho que elas ficam confortáveis comigo hoje em dia.
Embora essa mudança tenha me feito bem, eu acho que essa estranheza que eu tinha, essa coisa sem casca, era interessante pro trabalho. Tento buscar um pouco disso no meu trabalho hoje em dia.
Eu não tenho uma resposta, por que eu faço as coisas que eu faço. Mas acho que tem a ver com essa criança que eu fui, tímida, com poucos amigos, e que odiava ser fotografada. Acho que tá tudo ali no meu trabalho. E eu sempre acabo fotografando pessoas como eu, mulheres, da minha idade. Também me pergunto o que isso quer dizer.

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P: Como é seu ritmo de trabalho? Você se cobra muito nesse sentido?
F: Eu me cobro muito, mas não tenho um padrão. Ano passado eu não consegui fazer muito trabalho autoral, e pensei “poxa, eu preciso me dar esse espaço”. Esse ano eu tô nessa onda, de exercitar mais as coisas que eu quero desenvolver no meu trabalho. Eu não tenho uma frequência estabelecida, funciona mais assim: às vezes me dá um desespero, e eu tenho que fotografar.

P: Você já sentiu alguma dificuldade relacionada a gênero na carreira?
F: Ser mulher lésbica nunca me atrapalhou, antes dessas discussões virem a tona eu nem pensava nisso. Acho que tive sorte de ter muitos amigos e trabalhar num meio onde sou aceita, respeitada. Mas no geral, eu nunca senti tanto isso, e agora na verdade eu tenho sentido os benefícios do discurso feminista, dos movimentos de inclusão, etc -  talvez antes eu não sentisse porque eu não era nem considerada. Então nesse momento tá sendo ótimo. Marcas femininas tem buscado essa coerência de ter mulheres por trás das campanhas, por exemplo.

P: Você planeja a sua carreira artística? Como se vê no futuro?
F: Eu vou muito com o flow. Não me esforço pra estar no meio das artes, em uma galeria, etc. Eu coloco a minha energia em criar e as coisas vão acontecendo. Essa coisa de galeria tem uma seriedade que eu não sei se eu quero, fica mais pesado. Eu me sinto mais híbrida, misturo muito pessoal com comercial, design, arte, fotografia. Eu não me vejo só em um meio específico. Gosto de fotolivro, mas não me vejo tanto nesse mundo do fotolivro, entende?
Eu não penso muito a longo prazo, “vou desenvolver um assunto por um tempo”. Acho que o meu trabalho tem uma consistência, as coisas acabam se conversando, fazendo sentido. Mas eu nunca planejei tanto isso. Agora tenho pensado em
persistir em um assunto por mais tempo, acompanhar alguma coisa de fato. Quero ficar fotografando os frequentadores da Turma OK, que é uma boate gay no rio, por um período maior.

P: Que são pessoas que você não conhece.
F: Eu tava ouvindo a Annie Leibovitz e ela tava falando “eu não acredito que o trabalho do fotógrafo é deixar alguém a vontade”. Em parte é algo que eu tento fazer, mas eu acredito nisso no sentido que você vai trabalhar com o que a pessoa te der, mas você não vai transformar ela em outra coisa. Eu não super dirijo as pessoas, alguns fotógrafos são super cênicos, dirigem as pessoas como bonecos “faz isso, faz aquilo”. Eu sugiro algumas coisas, mas prefiro que seja mais orgânico.

P: É legal pensar o teu trabalho a partir disso. Que você não tem essa postura diante da fotografada: “fica tranquila, eu tenho tudo sob controle”. Você também tá tensa, tem duas tensões em jogo.
F: Eu tenho que tomar coragem de ir lá fotografar a pessoa. E nem tem a ver com intimidade. Eu não consigo fotografar a minha namorada agora, por exemplo. Mas eu tento não fugir. É tenso, mas eu não quero deixar de fazer. Eu vivo nessa luta.
Tem gente que se entrega muito, e tem gente que é mais desafiadora. Em trabalho comercial eu sinto muito isso. Tem as modelos, que sabem como se comportar diante da câmera (a nova geração se conhece muito, cresceu se fotografando, fazendo selfie, tem domínio sobre o corpo e a própria imagem).
Em trabalho comercial eu sentia mais a tensão de me sentir amadora. Depois eu fui aprendendo mais, sobre iluminação, equipamentos, e ajudou muito a dar mais segurança.

P: Voltamos a essas polaridades Digital X Analógico, Comercial X Autoral.
F: Às vezes enquanto tô trabalhando eu tento separar um pouco: isso aqui é mais editorial, isso aqui é mais um retrato. Mas às vezes se mistura. No fim eu acho que o que é mais forte pra mim é o trabalho mais autoral. Eu me sinto um pouco aprisionada com o digital. Ajustes de foco, luz, etc. Com o analógico eu me solto mais, não vejo o que tô fazendo, ele favorece essa liberdade. Me protege de mim (eu fico mais intuitiva) e a pessoa que eu tô fotografando também. Ela fica mais confortável, porque sabe que eu não tô ali avaliando o trabalho no visor da câmera o tempo todo.
Eu acho a minha linguagem mais podrona (o desfoque, o “erro”), difícil de comercializar. Então é um desafio meu agora, incorporar essas coisas, me colocar mais ali, no trabalho que eu faço pros outros.
 

artistas-curadoras na 33a Bienal de São Paulo [série] - 2 de 4

Continuando nossa série de posts sobre as artistas-curadoras da 33a Bienal de São Paulo - Afinidades Afetivas, hoje falaremos sobre a proposta Stargazer II [Mira-estrela II] de Mamma Andersson.

O trabalho de Karin Mamma Andersson (n.1962, Luleå, Suécia) é inspirado pelo imaginário de filmes, cenografias de teatro e interiores, que resultam em composições expressivas e oníricas. Suas principais referências incluem a pintura figurativa nórdica da virada do século XX, arte "folk", local ou vernacular. Sua temática envolve frequentemente paisagens melancólicas e cenários domésticos onde grossas camadas de tinta se alternam a texturas de cores lavadas. Andersson graduou-se na Royal University College of Fine Arts, em Estocolmo, onde vive e trabalha até hoje.

Abaixo, uma seleção de trabalhos da artista e um mini-doc de 24 minutos em que Andersson mostra seu estúdio, fala sobre suas influências e sobre seu processo criativo:

Em Stargazer II [Mira-estrela II], Andersson apresenta seu próprio trabalho em diálogo com obras de artistas que inspiraram e influenciaram sua produção, dentre eles: ícones russos do século XV, Henry Darger (EUA, 1892-1973)* e Dick Bengtsson (Suécia, 1936­-1989), - artista sueco que criava a partir de um processo bem semelhante ao de Andersson - ; a cineasta Gunvor Nelson (Suécia, 1931) e o piloto de caça e artista sonoro Åke Hodell (Suécia, 1919-2000). 

Em um breve contato com as obras dos artistas selecionados por Andersson, fica evidente a ressonância que estes têm em seu trabalho. “Estou interessada em artistas que trabalham com a melancolia e a introspecção como um modo de vida e uma forma de sobrevivência”, afirma.

 

* para quem quiser saber mais sobre Henry Darger, tem esse video no youtube e esta matéria do The Guardian, contando sua trajetória de vida mais detalhadamente e o link para o documentário de 2004 de Jessica Yu, citado na matéria disponível aqui. 

artistas-curadoras na 33a Bienal de São Paulo [série] - 1 de 4

Recentemente, a Fundação Bienal divulgou as propostas expositivas dos 7 artistas-curadores selecionados por Gabriel Pérez-Barreiro, curador da 33a edição da Bienal Internacional de São Paulo.

Em Afinidades Afetivas, título escolhido por Pérez-Barreiro para a Bienal, que tem abertura marcada setembro deste ano, a proposta curatorial busca valorizar a fruição individual das obras e não um recorte que direciona a uma compreensão previamente estabelecida. 

Para isso, o curador propôs 12 projetos individuais e 7 mostras coletivas organizadas por 7 artistas-curadores selecionados, que segundo ele, têm “total autonomia na concepção de suas mostras, tanto em relação uns aos outros quanto à curadoria geral. As únicas limitações impostas a eles foram de ordem prática, relativas a orçamento e ao uso do Pavilhão da Bienal”.

São eles: Aos nossos pais, de Alejandro Cesarco; sentido/comum  de Antonio Ballester; O pássaro lento de Claudia Fontes; Stargazer II [Mira-estrela II] de Mamma Andersson; A infinita história das coisas ou o fim da tragédia do um de Sofia Borges; Waltercio Caldas e Wura-Natasha Ogunji.

Cada vez mais interessadas na curadoria voltada às práticas de artistas mulheres, resolvemos apresentar em uma série de 4 posts aqui no blog, as propostas das artistas-curadoras convidadas, de modo a conhecer o trabalho delas e dos artistas que integram suas propostas expositivas.

Começaremos a série com O pássaro lento, proposta de Claudia Fontes, artista nascida em Buenos Aires (Argentina, 1964)  e que agora vive e trabalha em Brighton, Inglaterra. 
Através de sua obra Fontes investiga modos alternativos da percepção da cultura, natureza, história e sociedade que derivam dos processos de descolonização, sejam eles pessoais, interpessoais ou sociais. 

Em um de seus trabalhos mais recentes, uma instalação em grande escala para o pavilhão argentino na La Biennale di Venezia de 2017, estão representados em uma cena congelada, um cavalo, uma mulher e um jovem que lidam de maneiras diferentes com o mesmo paradoxo: uma crise se desenvolve e seus sintomas, são, ao mesmo tempo, o problema que os causa. The Horse Problem, é inspirado em ícones culturais do século XIX, sobre os quais a identidade cultural argentina foi artificialmente construída. Saiba mais sobre a obra aqui.

Já em sua proposta para a 33a edição da Bienal Internacional de São Paulo Fontes trata sobre a lentidão.  O ponto de partida de O Pássaro Lento surge quando a artista se pergunta sobre em qual situação um pássaro sentiria vertigem e para a artista, isso ocorreria quando a velocidade em que voa é tão lenta que corre o risco de cair.  Em contraponto ao fetiche moderno de velocidade, a artista e os artistas por ela convidados, e irão apresentar trabalhos de temporalidade expandida.  “[…] nossa espécie vem sendo treinada desde a infância para desprezar a vagarosidade e desejar rapidez. Como resultado, todos nós agora temos dificuldade de imaginar outros meios de estar consigo mesmo e com os outros”.

Com exceção de Roderick Hietbrink (Holanda, 1975), todos os artistas convidados irão desenvolver obras comissionadas especialmente para a ocasião: Ben Rivers (UK, 1972), Daniel Bozhkov (Bulgária, 1959), Elba Bairon (Bolívia, 1947), Katrín Sigurdardóttir (Islândia/EUA, 1967), Pablo Martín Ruiz (EUA, 1964), Paola Sferco (Argentina, 1974), Sebastián Castagna (Argentina, 1965) e Žilvinas Landzbergas (Lituânia, 1979).

Veja na galeria abaixo, uma seleção de trabalhos dos artistas:

exercício de curadoria: hysteria

A Hysteria é uma plataforma feita por mulheres, sobre mulheres e para mulheres, que a Piscina tem a honra de fazer parte. Durante todos os meses de 2018, a Piscina fará uma curadoria especial para o Instagram da Hysteria, com imagens de obras das artistas da Pisci, a partir de um tema proposto por nós. 

Em janeiro, o tema foi Corpo:

a dor, o dorso, a pele, o osso.
a carga de vida.

o corpo feminino se oferece à imagem: três poses.

e uma obra que, aqui, por contraste, parece comentar:

mas não esqueça do corpo da mulher padronizado, fragmentado, despersonalizado, substituível.

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E esta semana saiu o tema de fevereiro, Panorama:

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vastidão a ser explorada, vivida.
ver e ser o mundo através do seu próprio horizonte.
a linha
que separa o céu da terra, do mar.
a linha
que separa o resto do universo de si mesmo.
o horizonte-elástico
moldado pelo tempo, pelas circunstâncias.
ora se retrai e é tão restrito, ora se expande e ganha mundo.

 

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Estamos curtindo tanto o exercício e os temas que têm surgido, que a vontade é de desdobrar esta experiência em outras coisas, seja um fôlego, uma mini-publicação ou exposição. 

Tem sido muito bacana, no sentido de que nós três (Paula, Nataly e Ana) fazemos uma curadoria-relâmpago, o que nos interessa bastante como exercício. Tudo acontece online e à distância, o que lembra os primórdios da Piscina, em 2015, e já faz parte da essência do nosso projeto.

"Girl on Girl - Art and photography in the age of the female gaze", de Charlotte Jansen

Primeiro uma confissão. Comprei o livro Girl on Girl - Art and photography in the age of the female gaze, de Charlotte Jansen, impulsivamente, porque eu tinha um crédito na Amazon que precisava usar. Confirmado o pedido, me veio a leve sensação de que talvez ele fosse só um livro bonito para colocar na minha estante. E de fato. É inegável que ele ficou bonito na minha estante. Porém, fui surpreendida pelos textos sucintos, mas apurados, que acompanham cada um dos perfis das fotógrafas, comentando criticamente como essas imagens exploram questões relacionadas à identidade, feminilidade, sexualidade e feminismo. 

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O livro apresenta o trabalho de 40 fotógrafas contemporâneas de diferentes nacionalidades, etnias e estéticas. Entre elas, a quase-clichê Petra Collins, a ativista sul-africana Zanele Muholi, a chinesa Pixy Liao, a norueguesa Tonje Birkeland e a marroquina Lalla Essaydi. Apesar do claro esforço em contemplar uma diversidade cultural, a maior parte das artistas vive e trabalha nos Estados Unidos e na Europa e não há nenhuma artista latino-americana na lista (faltou a Charlotte dar uma olhadinha na Piscina, rs), o que situa as artistas em um contexto específico de criação e difusão. 

O foco são mulheres que fotografam mulheres, e as retratadas são as próprias artistas, amigas, namoradas e familiares, modelos ou mulheres de determinada idade ou contexto social. Apesar das inúmeras diferenças de abordagem, constantemente demarcadas por Jansen, o que essas fotógrafas possuem em comum é a tentativa de estabelecer uma nova forma de olhar para as mulheres, que possa, em algum nível, contrabalancear a primazia do olhar masculino. 

No século XX, fotógrafas como Cindy Sherman, Diane Arbus, Francesca Woodman, Vivian Meier e Nan Goldin começaram a ser reconhecidas, abrindo caminho para a nova geração que, influenciadas por esses nomes, seguem explorando a fotografia como forma de expressão, em uma era marcada pela proliferação incessante de imagens nos meios digitais. 

Um dos aspectos mais interessantes do livro é o recorte geracional, comentando sobre o trabalho de artistas que nasceram com acesso ao mundo virtual e utilizam a internet como veículo de divulgação e objeto de inspiração para suas criações. Não sem apontar as inúmeras contradições que essas artistas confrontam, ao ver que as suas tentativas de questionar o uso do corpo feminino na publicidade, por exemplo, terminam sendo apropriadas por esse mercado. Mesmo porque, muitas delas trabalham nesse contexto, em paralelo às suas atividades artísticas. 

Ainda sim, a busca por novas formas de representação, empreendidas por mulheres que tomam o controle da produção das suas próprias imagens, apresenta muitos aspectos positivos no sentido de minimizar o desequilíbrio provocado pela construção masculina. Vale ressaltar, que o “olhar feminino” não se refere unicamente a representar de forma mais “verdadeira” os corpos, ideias e experiências das mulheres, mas em ver o mundo de forma diferente. 

O fato de ser uma artista mulher não significa se identificar obrigatoriamente com um discurso feminino ou feminista. Inclusive, muitas das fotógrafas entrevistadas por Jansen não se sentem confortáveis com esse rótulo, que só cumpre a função de restringir os seus trabalhos. 

Uma artista mulher é, antes de tudo, uma artista. E como tal, ela tem a possibilidade de expressar uma infinidade de coisas, como ela vê e cria conexões com o mundo que nos rodeia, um privilégio que os artistas homens tiveram durante séculos. E a beleza de Girl on girl definitivamente não se restringe à minha estante, mas em permitir que vislumbremos algumas dessas infinitas coisas.

Ana Luiza 

"Por que não houve grandes mulheres artistas?" de Linda Nochlin

Dentre outras coisas, aqui no blog da Piscina iremos compartilhar ensaios, artigos, livros e notícias que trocamos entre nós em nossas conversa online. Como muita coisa acaba se perdendo, resolvemos deixar algumas destas leituras reunidas e registradas aqui para que mais gente possa ter acesso e também para que nós possamos consultar eventualmente. A ideia é inclusive deixar o canal aberto para que amigas, conhecidas e artistas possam compartilhar suas leituras e que possamos criar um banco de textos relevante e acessível. 

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Para inaugurar o primeiro textos da Piscina, começaremos com o artigo Por que não houve grandes mulheres artistas?, de Linda Nochlin. Até maio de 2016, o texto escrito originalmente em 1971, na ARTnews, não tinha sido traduzido para o português. Felizmente, a edições Aurora editou e publicou o artigo, que teve tradução de Juliana Vacaro (autorizada e festejada pela autora).  

Em seu texto Linda Nochlin pontua que a pergunta "Por que não houve grandes mulheres artistas?" esconde a verdadeira natureza da questão e já pressupõe a própria resposta. Segundo a autora, nossa percepção de como as coisas são no mundo está condicionada e deturpada pela forma como enunciamos as questões e cabe a nós nos perguntarmos quem está formulando essas questões e a que propósito elas servem.

Deste modo a questão das mulheres nas artes não deve ser vista pelos olhos de uma elite dominante masculina, mas no lugar disso, "as mulheres devem se conceber potencialmente - se não efetivamente - como sujeitos iguais, e devem estar dispostas a olhar para os fatos de sua condição cara a cara, sem vitimização ou alienação".

Segundo Linda, de fato não houve nenhuma grande mulher artista como "não houve também nenhum grande pianista de jazz lituano ou um grande tenista esquimó, e não importa o quanto queríamos que tivesse existido. [...] não existem mulheres equivalentes a Michelangelo, Rembrandt, Delacroix, Cézanne, Picasso ou Matisse, ou mesmo nos tempos recentes a Kooning ou Warhol, assim como não há afroamericanos equivalentes aos mesmos." Se existissem, pelo que então as feministas estariam lutando?

As coisas nas artes e em outras áreas são desestimulantes e opressivas "para todos aqueles que, assim como as mulheres, não tiveram a sorte de nascer brancos, preferencialmente de classe média e acima de tudo homens", diz a autora. E o problema não estaria em nossos hormônios ou qualquer outro traço biológico ou psicológico, mas sim nas instituições e em nossa educação. 

As concepções falsas envolvidas na pergunta "por que não houve grandes mulheres artistas?" destacam suposições ingênuas e distorcidas sobre o fazer artístico, dentre as quais Linda aponta a mitologia do "Grande Artista", - o ser único, precoce, dotado de um grande talento e uma aura mágica -, como sendo uma das principais. Esse tipo de mitologia do gênio artístico deixa em segundo plano as influências sociais, contexto histórico e estruturas institucionais nas quais o artista tenha vivido e contribui para a "naturalização" da concepção de que a falta de êxito das mulheres nas artes se dá pois estas não possuem talento para a arte.

Caso fossem avaliadas as reais condições na qual a produção de arte se deu, perguntas mais interessantes poderiam ser feitas, tais como: de que classes sociais era proveniente a maior parte dos artistas em diferentes momentos históricos? Qual é a proporção de artistas que veio de famílias nas quais seus pais ou parentes próximos eram artistas? Por que  não houve grandes artistas oriundos da aristocracia? 

Considerando que as habilidades ou inteligências são construídas desde o momento em que uma criança vem ao mundo, caberia aos estudiosos e historiadores de arte abandonar a noção de que a grande arte provém do gênio individual com habilidades inatas e examinar que o contexto social e os elementos da estrutura social determinados por instituições específicas, pressupõem o desenvolvimento, a natureza e a qualidade do fazer artístico.  . 

Vale muito a pena a leitura! 

Você pode fazer o download do pdf ou adquirir a versão imprensa por apenas 8 reais aqui neste link

Paula

ateliê #1 | Giulia Puntel

Esta é a primeira de uma série de visitas à ateliês e entrevistas em que o objetivo é conhecer as artistas que fazem parte da Piscina e se aproximar de seu processo de trabalho. Em um sábado nublado, conhecemos a Giulia Puntel, que nos abriu sua casa, falou do seu desenvolvimento de pesquisa mais recente, processo de trabalho e de suas referências. Compilamos aqui alguns trechos da nossa conversa:

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Piscina: Você pode contar pra gente um pouco sobre a sua formação, suas experiências?

Giulia Puntel: Me formei em Artes Plásticas na escola Guignard - UEMG, em Belo Horizonte, fiz artes plásticas mas queria ter feito cinema, então desde o início comecei a trabalhar com isso, trabalhei um ano em uma produtora e depois que saí de lá tive um envolvimento direto com o cinema independente que estava sendo feito em Minas, daí até hoje to nessa rs. Ainda não consegui fazer um trabalho meu que juntasse essas duas linguagens, mas tenho projetos, ideias, vontades...alguma hora elas vão se convergir. Mas posso dizer que a maior parte das minhas pinturas surgiram a partir de filmes que vi, ou de sensações que tive a partir de algum. 
Me mudei pra SP no início desse ano pra ter um contato maior com a pintura, os artistas, galerias, museus e está tudo rolando, acontecendo no tempo que tem que acontecer mesmo. 

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Piscina: Como você percebe a mulher no cenário artístico hoje?

Giulia Puntel: Eu sinto que muitas mulheres acabam ficando nesse lugar mais seguro da ilustração, que é o lugar do saber fazer, da técnica. Eu adoro ilustração, ilustro também e vários artistas que eu adoro são ilustradores. Mas eu gostaria de ver mais mulheres desenvolvendo. Arte é cutucar a ferida. Sinto que às vezes é falta de pegar na mão e falar: Você pode mais. Vamos juntas, vamos estudar. Não para aqui, esse é só o primeiro passo.

Piscina: Qual a sua pesquisa atual?

Giulia Puntel: Eu estou numa pesquisa sobre opacidade. Antes eu tava pensando muito sobre distopia - usando essas figuras humanas que eu sempre uso e pensando no futuro, mas ao mesmo tempo falando sobre mim, sobre como eu me sinto diante do mundo. Aí comecei a falar sobre disfarce e brevidade das coisas. Essas naturezas mortas e as flores ensacadas tem a ver com isso. Gosto muito da estranheza. Eu tenho muito medo de certezas, de pessoas que sabem de tudo. Eu vejo a pintura no lugar do questionamento, do olhar e não saber. Da sensação. O que eu tenho tentado fazer é sempre colocar uma carga de sensação na minha pintura, uma sensação que eu tenho com a vida.

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Piscina: Como é o seu processo de criação?

Giulia Puntel: Não existe uma regra de como ser artista. Eu tô há quatro meses só pintando, e aí rola uma culpa. Quando tá tudo certo: eu só preciso produzir. Mas acho que essa culpa vai rolar sempre, ainda mais quando você ainda não tem uma validação, não é de uma galeria, etc. Eu acho que com pintura você tem que estar ali todo dia. Mesmo que você não pinte, só lave um pincel. Mas você tem que estar ali. Inspiração existe, mas ela precisa do seu ritmo.

Quais artistas você citaria como referências para o seu trabalho?

Giulia Puntel: Rothko (meu sonho ver ao vivo - conheço gente que viu e desabou de chorar. Ao vivo dá pra sentir a energia, tem uma misticidade. A carga que o pintor coloca ali importa).
Jenny Saville era alguém pra quem eu olhava muito quando comecei a pintar. Sinto que estou me distanciando um pouco dela, mas ainda é alguém forte pra mim.
Michaël Borremans, Adrian Ghenie, Eduardo Berliner e Lynette Yiadom-Boakye também são grandes referências - olho sempre.
Fora isso,  me inspiro totalmente no cinema e nos filmes que vejo. Ultimamente tenho visto a obra da Chantal Akerman, da Claire Denis, revisto filmes do Apichatpong, Jem Cohem e do Leos Carax, além da poesia que cada filme tem, to sempre olhando pra fotografia, afinal daí que vem várias das imagens que levo depois para a pintura.