anaïs karenin | green scapes in grey foams | projeto estufa

Foi em uma sexta-feira pré segundo turno das eleições presidenciais que conheci a Anaïs-Karenin. A convite da curadoria do Projeto Estufa, parte da 23a edição do SPFW - São Paulo Fashion Week e composta pela cenógrafa Daniela Thomas e pela artista Mari Nagem, Anaïs apresentou a instalação Green Scapes In Grey Foams, ao lado de obras de outros 16 artistas contemporâneos.

Por se tratar de um evento ligado diretamente à moda, quando Anaïs nos convidou para ver seu novo trabalho, me lembrei de imediato de uma outra instalação da qual vi apenas registros fotográficos: Comodo INA (2016) apresenta tecidos, vestimentas e modelagens desconstruídas dispostas no espaço junto a uma máquina de costura.

Mas a proposta de Anaïs para o Projeto Estufa tem menos a ver com tecidos e mais a ver com o espaço. Em Green Scapes In Grey Foams a artista está interessada em como a arquitetura interfere sobre o ambiente, sobre os nossos corpos e subjetividades ao mesmo tempo em que investiga sobre como a nossa relação com o ambiente construído e com os materiais diz muito sobre a existência e comportamento humanos.

Em ressonância com o intenso momento político, a instalação de Anaïs evidencia contrapontos, expõe tensões e promove diálogos entre traços aparentemente opostos. Ao longo da nossa conversa, pude perceber que os diferentes na obra da artista buscam cada vez mais se hibridizar, evidenciando, cada qual, a sua essência.

Logo à primeira vista, a oposição entre natureza (orgânico) e ambiente construído (artificial) se sobressai através das plantas ornamentais, que, penduradas com as raízes voltadas para cima, formam uma massa verde que se espalha organicamente pela estrutura metálica. Esta, por sua vez, modular e meticulosamente calculada para sustentar o peso da instalação, dialoga com o espaço do galpão industrial em que se insere.

Ao adentrarmos o espaço delimitado pela estrutura metálica nos deparamos com estruturas verticais de diferentes tamanhos compostas por cubos de cimento se equilibram uns sobre os outros. Os blocos ora são lisos evidenciando a sua geometria "artificial" criada pelo homem, ora apresentam ranhuras e desgastes, assemelhando-se a pedras e rochas encontradas na natureza. Os blocos que compõem a instalação são todos brancos, exceto por um deles, o maior e mais liso, que se apresenta na cor de cimento. Destacando o rigor técnico ali desempenhado, é também o único que não foi confeccionado pela artista, e sim pelo seu avô.

A ancestralidade e a herança familiar permeiam intensamente a pesquisa de Anaïs, que busca através do gesto do avô, um retirante nordestino que veio a São Paulo trabalhar como pedreiro, transpor diferentes realidades em seu trabalho. O barro seco do sertão toca o cimento cinza e branco das cidades. Se em alguns elementos o barro parece sustentar o cimento, em outros o cimento parece esmagar ou apoiar-se no barro.

Essa relação entre os materiais pode nos remeter às relações dos migrantes na cidade grande. Como foram acolhidos? (Foram acolhidos?) Como foram inseridos na cidade? Não seriam as grandes cidades uma massa de concreto carregada do gesto de tantos migrantes? Os elementos de tecido tensionados e pintados de barro, também podem nos remeter a essa relação. A tensão de ser um retirante em uma cidade grande, condição que pesa ao indivíduo, que então tensiona-se, coloca-se no limite e tem sua essência coberta a fim de pertencer ao novo ambiente.

Ao criar um espaço híbrido que explicita dicotomias – natural/construído, orgânico/artificial, vegetal/mineral –, a artista busca observar a reação dos sujeitos que interagem com a obra ao deslocar os materias de seus contextos habituais e usos óbvios, que podem limitar a nossa percepção da realidade.

E, inserida em um evento multidisciplinar, e não em um espaço de arte convencional, a instalação propicia relações inusitadas da parte do público, que por vezes se apoia nas estruturas para tirar selfies com as plantas ornamentais como fundo. Prática esta, cada vez mais vista também em galerias e museus.

Outro aspecto importante de se observar em Green Scapes In Grey Foams é o modo como a artista incorpora conceitos da filosofia e estética japonesas. Temas centrais em sua pesquisa recém finalizada de mestrado, Anaïs traz os conceitos de Kintsugi e Shizen.

Com detalhes em dourado em algumas de suas obras, a artista remete ao Kintsugi (técnica tradicional japonesa de reparo de cerâmicas quebradas com ouro) para chamar atenção para as coisas mínimas, pequenos detalhes normalmente sem relevância e que passam desapercebidas. Já o shizen (palavra japonesa que se traduz como natureza mas que também pode ser entendida como toda a criação) remete ao animismo – crença de que todas as formas da natureza (animais, pessoas, plantas, fenômenos naturais, etc)  possuem uma alma conceito que perpassa a cultura indígena brasileira e que está também presente na raiz da cultura sertaneja e nordestina.

Ao trazer materiais artificiais e orgânicos para sua obra, a artista busca tratar sobre a vida que existe em todas as coisas, elementos e materiais, trazendo uma visão holística para o momento atual em que, inseridos em grandes cidades, imersos em compromissos, agitação e discussões constantes, acabamos desconectados da nossa verdadeira essência.

Paula

#battleforce | magic minas + efêmmeras

A convite da Nike, fomos prestigiar o evento de reinauguração da quadra poliesportiva da Praça Rotary, que aconteceu no último sábado, no centro de São Paulo. Foi ótimo presenciar o desfecho de um movimento que partiu de uma iniciativa feminina e que resultou no primeiro espaço público do Brasil pensado e concretizado por mulheres.

A Praça Rotary transformou-se em um marco na história do basquete feminino brasileiro após ter sido ocupada, em julho de 2017, por um grupo de mulheres que reivindicavam um espaço público para a prática do esporte. A iniciativa, que contou com o apoio da ex-jogadora Magic Paula, transformou-se no time Magic Minas, que passou a se reunir na quadra todas as semanas para treinos e jogos.

Nós conversamos um pouquinho com a Bela Gregório, que encabeça a rede Efêmmera, responsável pela coordenação do projeto de revitalização da quadra. Ela nos contou que a arte foi co-criada por cinco grafiteiras (@liafenix, @amandapankill, @alinetsc1918, @nuvemv e @missmartinha) que pensaram juntas os elementos visuais como cor e tipografia, e que o projeto também contou com uma diretora de arte e uma produtora.

Nós conhecemos a Bela em uma feira gráfica em 2016 e ficamos muito felizes em reencontrá-la dois anos depois, dando continuidade e ampliando um trabalho tão bonito e necessário. A Efêmmera é formada por artistas que tem a rua como plataforma de trabalho, e viabiliza um ambiente de diálogo com o público e com o mercado interessado em conhecer mais desse movimento. As artistas realizam palestras, oficinas, pinturas e ações urbanas, disseminando a cultura de rua feita por mulheres na cidade.

 O resultado final

O resultado final

piscina entrevista | Alice Yura

Conheci Alice por acaso, na ocasião da exposição GULA, individual da artista Berna Reale em exibição na Galeria Nara Roesler, e na qual ela é retratada em uma das obras (Fome de Leão, 2018). Nos poucos minutos em que conversamos, percebi que ali tinha alguém com um olhar bastante singular. Fiquei muito interessada no que ela tinha a dizer e não me saiu da cabeça a ideia de convidá-la para um café. Alguns dias depois nos encontramos e em pouco menos de duas horas Alice me contou, dentre outras coisas, sobre sua trajetória como artista transgênero no interior, sobre suas influências, sobre visibilidade e inclusão no meio da arte e acima de tudo, sobre o que acredita. Com ajuda da minha amiga e companheira de Piscina, Naly, apresentamos abaixo um resumo desse precioso encontro. - Paula

edit.jpg

Para começar, você poderia falar um pouco da sua formação e trajetória?
Me formei bacharel em artes visuais pela UFMS, e fiz uma especialização em produção em Arte Visuais e Cultura. Tô tentando produzir desde 2010, aquela coisa engatinhando. Não sou uma pessoa que tem uma produção muito frenética, ultimamente a gente tem pensado em produzir arte em cima da rapidez das mídias, rola uma massificação dos conceitos… Isso me cansa um pouco, eu gosto de fazer as coisas com calma. No momento de elaboração de um trabalho, fico muito tempo pensando. Não tenho muitos trabalhos, muito do que eu tenho em arquivo nem considero trabalho, penso como experimentação para testar como uma ideia pode funcionar.
 
E qual a sua pesquisa atual?
Basicamente o que eu pesquiso é a relação entre arte e vida, e a conexão disso ao gênero. Até um pouco óbvio. Às vezes me questiono, sobre a razão pela qual não consigo expandir meu olhar pra outras questões. Mas ao mesmo tempo é uma questão política. Se não eu, quem vai falar disso? Intimidade e política se misturam muito no meu trabalho. Tenho um pensamento muito continuo, muito fluido, e acho que não penso a mesma coisa da mesma forma sempre, apesar de ter a mesma questão por muitos anos.

Como você percebe esse amadurecimento?
Essa conexão entre arte e vida pra mim é tão fundamental porque de onde eu venho, não existe arte contemporânea. No Mato Grosso do Sul (inteiro), só tem um museu de arte contemporânea. Quando penso no meu trabalho não tenho como ignorar a minha origem.
A formação acadêmica foi fundamental pra mim porque só tive acesso a esse tipo de conhecimento na universidade. A minha ambição quando comecei o curso era ser pintora, eu queria pintar coisas belas. Não havia uma preocupação conceitual.
Em 2008, fazendo um trabalho para uma disciplina, eu descobri a performance, ali entendi que meu próprio corpo tinha potência poética e estética. Antes era tudo muito intuitivo, eu não pensava sobre isso artisticamente. Foi a partir dessa tomada de consciência que  comecei a trabalhar mesmo.
E nesse momento a questão do gênero já apareceu. Nessa época eu ainda não tinha feito a transição, e era bastante andrógina. Nos lugares, as pessoas me confundiam e eu entendia que a reação das pessoas era diferente quando me percebiam como menina ou como menino, ou quando ficavam confusas. Dessas percepções surgiram duas instalações com fotos minhas, em uma as pessoas interagiam e formavam novas coisas, na outra havia uma participação mais passiva. O olhar do outro afeta a gente de forma direta. Eu me construí como pessoa e como artista muito a partir da relação direta com o outro. Minha arte não vem do isolamento, da ideia que surge lá no meu quarto. Eu não tenho como ignorar o outro. O preconceito, a violência. Se lá na minha cidade estavam jogando lata em mim e nos meus amigos, esse outro existe e ele intervém.
Apesar da minha vida ter sido do embate, não foi da violência. Eu escolhi o embate intelectual e artístico, produzir algo relevante com isso, pra mim e pra quem está ao meu redor.

A arte que surge da experiência e a potência que ela tem de transformá-la.
A arte pra mim surge assim. Não é aquela coisa de família rica, vernissages, exposições, erudição.A minha arte veio de uma necessidade de me manter como pessoa de forma sóbria. Arte me traz sobriedade. Pensar a realidade através da arte me faz crer que a arte pode subverter as coisas de uma maneira positiva, e torná-las acessíveis.
Artista como gênio me incomoda. O cotidiano é fantástico. É o lugar onde a gente pode sonhar. Não é perfeito, mas é fantástico.

Pensando em tornar acessível, como você usa a internet e as redes sociais para o seu trabalho?
Tem duas coisas, sobre o instagram, por exemplo. Uma é as macrotendências da arte, que pra mim é chato. Todo mundo falando e fazendo coisas parecidas. Eu não sou partidária, eu faço o que eu acredito e ponto final.
A outra é o debate sobre conteúdos relevantes, e isso é legal. Acho importante um pensamento crítico sobre o que você consome no facebook e no instagram (eu não tinha insta até o final de 2017 - fiz por pressão de trabalho). Uso instagram como ferramenta, gosto de pensar no feed, como construir imagens ali. E uso muito para pesquisa. Gosto de ter informações direcionadas, nem sigo muitos amigos.

Saindo um pouco da virtualidade, como você percebe essas espacialidades -  ser artista no interior e em São Paulo?
Também vejo dois lados: por um lado sinto que tenho um pensamento menos tendencioso, menos “contaminado” -  eu não vou pensar o que as pessoas querem que eu pense. Às vezes no circuito fica tudo meio pasteurizado.
Mas trabalho no interior é muito complicado. Se em São Paulo já é difícil, lá é muito pior para uma pessoa trans. Eu gostaria muito de dar oficinas, cursos, etc, para pessoas em vulnerabilidade social. Eu tenho minha família que sempre me apoiou e ainda me apoia, sou muito grata e não esqueço disso - penso em como devolver isso pra sociedade, pra outras pessoas, fazendo o que eu sei fazer.  Em São paulo ainda tem políticas públicas que permitem isso, no interior é muito mais complicado. Eu me ofereci uma vez no CRAS [Centro de Referência de Assistência Social], pensando em estimular as pessoas a pensar e produzir a partir da sua situação, criar a partir disso. E a coordenadora me perguntou se eu não poderia ensinar a pintar pano de prato. Até sei, mas não é o que tenho de melhor pra oferecer.
Lá eu não tenho como trabalhar. Pensar em São Paulo é pensar em trabalho. Eu gostaria de trabalhar diretamente com o público trans, e em cidades menores é um público muito diminuto, ao ponto da invisibilidade mesmo.
Ao mesmo tempo, muitas vezes em São Paulo percebo que tenho mais liberdade com pessoas cis, do que trans. Aqui tem uma resistência.
Por exemplo, as meninas negras terem mais evidência acho correto. Mas eu não sou negra, sou descendente de japoneses e de origem caipira, sou do interior, do Mato Grosso do Sul - um estado que sofre um apagamento cultural. Meu lugar de fala é específico. E não vejo abertura de diálogo, para estabelecer trocas, produzir junto. Eu também não sou ninguém aqui, isso influencia. As pessoas são muito midiáticas.

Como lidar com as dissonâncias dentro de grupos minoritários?
Mesmo dentro das minorias, sinto uma disputa quanto a quem é mais minoria. Já ouvi que sou privilegiada, porque estudei em universidade federal, etc. E por isso não posso falar.
Que transfeminismo é esse? Tem uma cartilha pra ser mulher, pra ser negro, pra ser pobre, e isso impede o diálogo. Dentro das minorias a gente reproduz um autoritarismo da classe dominante - sobre a religião do outro, sobre o corpo do outro etc. Uma pessoa trans religiosa sofre preconceito de outras trans, por exemplo. Se for assim, eu não quero pertencer. A fala tem que ser transformada em contato, em acesso, não em repressão.
A sociedade é segregadora e cruel. A gente não separa pra entender as diferenças, a gente separa pra classificar o que é bom e o que é ruim (e não é por aí que deveria ser).

Mesmo dentro da minoria, ainda é preciso lutar por um espaço. Não pertencendo a um certo circuito de arte consolidado em São Paulo, e encontrando essa resistência entre a comunidade trans aqui mais organizada, como ser ouvida e manter a confiança em si mesma e no seu trabalho?

Muitas vezes é muito difícil e nem sempre me sinto forte suficiente para lidar com o sistema, com egos, etc. Porém, eu tenho uma relação muito profunda e intrínseca com a arte; isso me motiva a continuar mesmo com todos percalços. E, independente do que possa acontecer ou vir a acontecer eu sei o quanto me dedico e quanto minha vida está nos meus trabalhos, então por mais que eu não tenha grandes reconhecimentos ou esteja num nível de prestígios em relação ao que faço, eu sei que faço bem, com verdade e com muito amor. Cada pequeno passo e cada contato aprendo muito, lembro sempre de onde eu venho e dos meus privilégios, busco fazer deles não o que me separa dos outros, mas, um meio de estabelecer diálogos e pontes, como também, uma possibilidade de construir uma outra narrativa que não é a que se espera de uma mulher trans (ainda hoje). Este ano tive o prazer e a honra de participar e colaborar na produção de um trabalho da artista Berna Reale, ela queria abordar a violência contra pessoas trans no Brasil e, me ouviu com muita humildade e sensibilidade, acreditou na minha capacidade de produzir a foto e ser a performer para essa obra (Fome de Leão, 2018 - parte da mostra GULA). Talvez, essa atitude dela sirva de exemplo para tantos outros artistas, produtores e agentes de cultura; nós não somos estampas e caso haja abordagem sobre a questão ou tema trans insira legitimamente pessoas trans no trabalho, isso faz toda diferença. 

E como é possível estabelecer essas pontes?
Acabando com a hipocrisia do discurso. O contra senso e a diferença no mesmo espaço promove o diálogo e isso é fundamental. As pessoas tem que parar de querer ser celebridades, vamos ser gente. Chega de simulacro. Sair da virtualidade. A realidade pertence a todos, e é necessário ouvir o outro. Isso é ter uma vida compartilhada de verdade. Compartilhar na rede é outra coisa, muito mais cômoda.
Menos demagogia dentro dos movimentos sociais, dentro da arte. O momento no Brasil é muito triste, não tem como se isolar.
Esses dias eu estava em uma conversa sobre lugares específicos para pessoas trans. Se eu for num lugar, e minha mãe não puder entrar, meus amigos e amigas não puderem entrar, esse lugar exclusivo, a esse lugar eu não pertenço. E isso não me deslegitima como uma pessoa trans. Eu quero ser uma pessoa trans no mundo. Que tem o respeito e que respeita as pessoas.
Acho que artistas trans na música e no teatro (que são mais populares e acessam mais o público) poderiam também abrir portas para pessoas trans das artes visuais, e não vejo esse movimento.

Como você vê as políticas de inclusão no mundo da arte?
Acho que o tempo vai dizer. Se a inclusão é genuína, ela vai colocar e manter as pessoas em um lugar. O artista negro ou trans vai sumir daqui a um ano? Se o debate esfriar? Mesmo se feito com oportunismo, acho que as pessoas beneficiadas devem ter inteligência e um posicionamento concreto em relação a isso. Se querem me usar pra fazer mídia, eu vou usar o espaço de vocês pra incluir mais gente. Essas pessoas devem ser ativas: exigir minorias na produção, por exemplo. Discurso sem prática é palanque, demagogia. Eu não quero palanque. E quero construir uma base sólida para o meu trabalho, de pertencimento. Para mim e pra outras. É o que tento fazer.
Eu poderia ter vindo pra São Paulo, feito programa, e com essa grana ter financiado uma exposição. Mas eu não quero. Eu tenho direito de recusar esse lugar -não porque não seja digno, mas porque eu não quero.
Às vezes o trabalho de uma artista trans ainda não é o mais maduro, ainda não é o melhor. Mas ninguém começa sendo o melhor, e essas pessoas precisam começar de algum lugar.
Eu acredito que uma menina trans na prostituição pode ter expressão poética. Tem como dizer que o trabalho do Bispo do Rosário (que passou quase a vida toda num hospício) não tem potência? Hoje ele está ai, sabe? Não é só por mim. Quando eu falo em representatividade em museu, por exemplo.

Quais são suas principais referências na arte?
Me dei conta que, intuitivamente, as principais são mulheres.
Yoko Ono, Yayoi Kusama, Orlan, Frida (ela é inegável, como mistura trabalho e vida), Márcia X. tenho visto bastante, e acho porreta. Berna Reale, Adriana Varejão, Rosângela Rennó. Tomi Otahke me emociona muito. Priscila Pessoa, do Mato Grosso do Sul, que foi minha professora e ainda é minha diva.
A Hanna Ahrendt tem essa frase, ela fala que o ser humano é um ser condicionado, e tudo com que ele toma contato acaba se tornando condição de sua existência. E eu sinto muito isso na arte, tudo me toca ou me inspira de alguma forma. Mas as mais notáveis são mulheres mesmo.

ateliê aberto | pivô pesquisa | parte 1: gabriella garcia

No dia 11 de agosto, aconteceu a décima segunda edição do Ateliê Aberto, projeto de residência artística que acontece anualmente na Pivô e do qual participaram as artistas Gabriella Garcia e Giulia Puntel. 

Acompanhávamos o trabalho de ambas através do Instagram desde que elas começaram a fazer parte da Piscina, mas conhecemos pessoalmente primeiro a Gabriella, por ocasião da montagem e da abertura da exposição que fizemos ano passado na Galeria Recorte e mais tarde, conhecemos a Giulia quando demos início às entrevistas com as artistas, no final de 2017. 

Neste curto hiato de tempo, mesmo acompanhando virtualmente, era muito visível o amadurecimento do trabalho das duas e não foi tão surpreendente vê-las como participantes da residência da Pivô. Logo na primeira oportunidade de Conversa Pública, resolvi ver de perto o que elas estavam desenvolvendo. 

Embora tenha começado sua carreira artística com trabalhos essencialmente de colagem, Gabriella Garcia foi passando aos poucos do bidimensional para o tridimensional ao construir peças escultóricas que eram quase como assemblages e sobreposições de materiais, mas que ainda remetiam bastante à técnica anterior, nesse movimento "aglutinador" inerente da colagem, que sobrepõe e junta camadas. 

Mesmo já tendo visto online algumas das experiências de Gabriella com o tridimensional, fiquei surpresa ao ver uma certa influência cenográfica em seu trabalho, o que resultou em instalações, como a instalação Isso É O Que Acontece Quando Duas Substâncias Colidem feita para o Dekmantel Festival 2018; e em peças escultóricas que se inserem e se relacionam com seu entorno, como é o caso da Suspended Body (2018), peça em chapa metálica suspensa, desenvolvida para o ODD Fest, estrategicamente posicionada para vibrar e reverberar o som. 

Durante este primeiro encontro, me pareceu que a materialidade é central na pesquisa da artista e que durante o ateliê ela pode explorar questões como bidimensionalidade x tridimensionalidade e investigar como o material se comporta frente à tensões nele empregadas e trabalhar os materiais afim de confundir os sentidos do espectador.

As peças Void Space e Complete Space (imagens acima), por exemplo, parecem muito pesadas, mas a artista logo mostra que, que, na verdade, produzidas em poliuretano expandido, são muito leves. Nestas peças, a organicidade da forma remonta à natureza, mas no entanto, apresentam-se em branco, artificiais, assim como a noção de peso conferida pela forma, que é apenas ilusória. 

Durante o evento de Ateliê Aberto, em que os residentes se dispõem a compartilhar os resultados de suas pesquisas com o público, a relação com a natureza no trabalho de Gabriella ficou ainda mais evidente.  No mural de referências que estavam em uma das divisórias do ateliê (segunda imagem da galeria abaixo), a oxidação do cobre aparecia em destaque, o que se converteu em um trabalho no qual a artista busca mimetizar esse fenômeno com tinta acrílica sobre o material. Outro trabalho que chamou atenção justamente por esse aspecto foi Aterramento: uma caixa transparente e hermética, na qual estão uma lâmina de cobre que foi manipulada até esta se assemelhar a uma pepita ou pedra que se encontra envolta, enterrada, em um material vegetal (ver imagem abaixo). 

Esta peça, além de remeter a um projeto ainda não realizado pela artista, - em que estacas de cobre, material conhecidamente condutor de energia, são fincadas ao solo, a fim de transmutar energia da terra para quem as toca -, remete mais uma vez ao natural: o material mineral, depois de extraído, processado, refinado e industrializado, retorna às suas origens.

Mas se no primeiro encontro no ateliê, Gabriella parecia ter um foco específico em esculturas, desta vez, me surpreendi ao ver algumas pinturas em tela. Na primeira visita, ela estava começando um trabalho em pintura e colagem em grandes proporções (ver segundo grupo de imagens do post) e além deste, a tela aparecia também como suporte de dois trabalhos, um na cor branco e um em cobre, em que um volume envolto em tecido parece  estrapola os limites da tela para ganhar o espaço e, no caso do trabalho em cobre, relacionarem-se entre si (ver imagens abaixo). 

Em um dos trabalhos desenvolvidos mais recentemente no ateliê, a tela recebe uma camada de tinta para se transformar em uma espécie de base para um elemento escultórico. Já em outro trabalho a tela é trabalhada bidimensionalmente, em uma abordagem mais tradicional, em tinta sobre tela com a adição de folhas de prata, o que diante dos outros experimentos, apresenta uma inovação no modo como a artista usa e trabalha a tela (ver segunda imagem da galeria abaixo). 

Ao meu ver, embora esta obra carregue muitos dos elementos que vêm sendo trabalhados pela artista, ela se difere dos outros trabalhos justamente por explicitar uma influência da experiência do ateliê. Entre os trabalhos apresentados, é perceptível um movimento oscilatório, um ir e vir, de graves e agudos, de suavidade e força, onde se percebe a diluição da tridimensionalidade, em escalas e graus diferentes, até chegar ao plano bidimensional e vice e versa. 

No post seguinte, falarei um pouco mais sobre a questão da influência do ateliê ao abordar o trabalho desenvolvido pela Giulia Puntel durante os 4 meses de residência do programa Pivô Pesquisa. 

Paula

ateliê aberto | pivô pesquisa | parte 2: giulia puntel

Esta é a segunda parte do post sobre a décima segunda edição do Ateliê Aberto, projeto de residência artística que acontece anualmente na Pivô e do qual participam as artistas Gabriella Garcia e Giulia Puntel.  No primeiro post, falei um pouco sobre o trabalho desenvolvido pela Gabriella durante a residência e agora, irei abordar o trabalho da Giulia, assinalando os pontos de contato entre as duas pesquisas. 

Tendo tido um primeiro contato com o trabalho das artistas durante o Pivô Convida, e depois, ao ver o resultado do período em que estiveram trabalhando no ateliê, ficou clara a influência que a experiência teve no trabalho de ambas. Embora não se conhecessem pessoalmente antes do Pivô Pesquisa, a convivência entre as duas parece ter sido muito prolífica e positiva. Se por um lado, a pintura bidimensional era praticamente ausente no trabalho da Gabriella, por outro lado, a tridimensionalidade não era uma característica presente no trabalho da Giulia. 

Desde que conhecemos a Giulia aqui pela plataforma, seu trabalho se modificou bastante. Seu repertório de imagens e referências construído a partir de filmes, fotografias, videos da internet e imagens do Instagram, em um primeiro momento da sua produção, era traduzido quase que a partir de reproduções integrais, de cenas "inteiras", por assim dizer. 

Quando fomos entrevistá-la aqui para o blog, Giulia já tinha começado a participar do Acompanhamento de Pintura, um grupo de estudos coordenado pelos artistas Regina Parra e Rodolpho Parigi e era bem visível a mudança que este processo alavancou em seu trabalho. O referencial imagético da artista começava a se traduzir em cenas de um imaginário distópico, de cenas desconstruídas, que instigavam o espectador a criar de uma narrativa própria, não linear. 

Do mesmo modo que em um determinado momento, foi visível a bidimensionalidade da Gabriella se metamorfosear no tridimensional, as cenas trazidas pela Giulia começaram a trazer uma certa fragmentação, uma "colagem de elementos" tendência que se expandiu e ficou mais evidente em dois dos trabalhos apresentados no Ateliê Aberto (ver galeria abaixo).

Dos trabalhos maiores com a ˜colagem" de elementos, Giulia se desloca às cenas "inteiras", como chamei anteriormente, mas desta vez em telas menores. Não são fragmentos e elementos agrupados o que vemos, e sim uma cena única, com um ou dois personagens. Mas dessa vez, é como se Giulia atuasse como diretora do nosso olhar e escolhesse um quadro de um filme e desse um zoom, enquadrando e chamando atenção do espectador para o que ela quer que seja visto na cena. 

Chama atenção a dupla de trabalhos em que são retratados dois rostos, que também aparentam ser parte de um todo, de uma cena maior, mas trazem a novidade de não se limitarem ao plano bidimensional da tela. As superfícies se contorce para ganhar tridimensionalidade e, suspensas por fios de arame na parede, remetem à obra Suspended Body, vista no ateliê da Gabriella. Uma das obras apresenta ainda mais uma singularidade e no trabalho da Giulia: uma tela de arame é justaposta à composição e criando uma assemblage (ver galeria abaixo).

Essa prática aparece ainda em outro trabalho, que traz duas tiras de chapa de cobre, provenientes do ateliê da Gabriella (segunda imagem da galeria abaixo), e que são fixadas à aresta superior de um suporte retangular de madeira, o qual recebe apenas uma faixa de tinta branca. A madeira, suporte utilizado pela artista em sua primeira pintura e nunca mais utilizado pela artista desde então, retorna ao trabalho de Giulia neste contexto de inserção de objetos achados ao acaso na obra e na prática artística.

Esses "objets trouvés" são assimilados pela artista e se inserem quase como objetos cenográficos na composição do espaço na ocasião do Ateliê Aberto, dois deles junto à mesa, com pães preparados pela própria Giulia e que eram oferecidos aos visitantes. A outra peça em madeira, pendurado por uma espécie de corda, retrata o que parece ser uma cabeça envolta em um saco opaco, talvez de tecido, tema sobre o qual temos alguma pista ao olhar os desenhos à lápis exibidos na parede logo à frente.

A mesma temática aparece em outra pintura, posicionada no espaço comum, dialogando com o trabalho de outros artistas participantes do ateliê, e que chama atenção não só porque se destaca das demais pinturas, seja pelas cores empregadas, seja pelo modo como os elementos estão retratados - o fundo menos sólido que nas demais pinturas, mais nebuloso talvez -, mas também pelo modo como esta se insere no espaço. Suspensa, evoca, mais uma vez, volume e a tridimensionalidade.

Por razões óbvias, tracei aqui um paralelo entre os trabalhos das duas artistas, os quais tenho mais proximidade, mas é claro que os trabalhos de todos os artistas devem ter exercido influência entre si, assim como as conversas com os curadores possivelmente os estimularam ainda mais a criar a partir de novas perspectivas.

Com estes dois posts, quis compartilhar minha percepção e livre interpretação acerca do que vi, e posso, inclusive, estar enganada quanto ao que as artistas se propuseram a pesquisar durante o período de ateliê. De todo modo, acompanhar um pouco mais de perto o trabalho das meninas e me propor a escrever sobre foi certamente uma das experiências mais bacanas do meu ano aqui na Piscina. 

Paula

artistas-curadoras na 33a Bienal de São Paulo [série] - 4 de 4

No último post da série sobre as artistas-curadoras convidadas pelo curador da 33a Bienal de São Paulo, Gabriel Perez Barreto, falaremos sobre a artista Wura-Natasha Ogunji e sua proposta para a mostra "Afinidades Afetivas". 

Wura-Natasha Ogunji (África do Sul, 1984) vive entre Austin (EUA) e Lagos (Nigéria). Seu trabalho transita entre desenhos, vídeos e performances. Seus desenhos feitos em grafite, tinta e bordados à mão sobre papel vegetal são inspirados nas interações cotidianas que ocorrem na cidade de Lagos, das mais íntimas às mais extraordinárias. Já suas performances, exploram a presença feminina no espaço público e tratam de questões como trabalho, lazer, liberdade e banalidades.

Em The Kissing Mask, performance de 2016, a artista tem como ponto de partida a questão “Who are you kissing when you kiss a mask?”[Quem você está beijando quando beija uma máscara?]. A máscara é usada para interromper as expectativas do espectador, uma ruptura nos modos de interação que conhecemos e nos são familiares. Parafraseando a artista, a máscara oferece experiências separadas, de outro mundo, não legitimadas, que abrem um espaço dentro das formas usuais de interação. 

Com o título sempre, nunca a proposta de Ogunji para a Bienal apresenta um diferencial: é composta somente por obras comissionadas especialmente para a mostra, feitas apenas por artistas mulheres que criarão trabalhos através de um processo curatorial colaborativo e horizontal. As artistas convidadas são: Lhola Amira (África do Sul, 1984), Mame-Diarra Niang (França, 1982), Nicole Vlado (EUA, 1980), ruby onyinyechi amanze (Nigéria, 1982) e Youmna Chlala (Líbano, 1974), que segundo Ogunji, têm uma produção que, assim como em seu trabalho, “concilia aspectos íntimos (como corpo, memória e gesto) a épicos (arquitetura, história, nação)”.

 

 

artistas-curadoras na 33a Bienal de São Paulo [série] - 3 de 4

Já falamos sobre as propostas curatoriais e sobre as obras de Claudia Fontes e Mamma Andersson e no terceiro post da série sobre as artistas-curadoras da próxima edição da Bienal Internacional de São Paulo, falaremos da trajetória e da proposta da artista Sofia Borges

Sofia Borges nasceu em Ribeirão Preto (1984) e atualmente vive entre São Paulo e Paris. Formou-se em Artes Visuais pela Universidade de São Paulo em 2008 e nos anos que se seguiram à conclusão do curso, recebeu inúmeras premiações (para ver o cv completo da arista clique aqui) e já em 2012 era a  a artista mais jovem a ser convidada para participar da 30a Bienal de São Paulo. A artista já teve mostras individuais em Paris, Lisboa, Amsterdã, Viena, São Paulo e Cidade do México além de ter trabalhos apresentados em coletivas no Brasil, nos EUA, na França China e no Qatar. The Swamp [O Pântano], livro autoral que desenvolveu com base na exploração de cavernas pré-históricas no Sul da França, ganhou o First Book Award e foi lançado junto a uma individual na PhotoLondon 2016. 

A obra de Sofia Borges envolve questões sobre a representação e trata da relação entre matéria e significado. Tendo a fotografia como linguagem principal, a artista busca em seus trabalhos, extrair os pontos de contato que a imagem pode ter com o real, com o mundo. Em sua pesquisa, as fotografias são ponto de partida, tornam-se matéria-prima de um longo processo em que as imagens assumem diferentes papéis de acordo com contextos específicos. 

Abaixo, uma seleção de trabalhos e vistas de exposições da artista:

 

A infinita história das coisas ou o fim da tragédia do um, proposta de Sofia Borges para a 33a Bienal de São Paulo, tem como ponto de partida interpretações sobre a tragédia grega para investigar os limites da representação. Em seu projeto expositivo, uma seleção de peças específicas estarão lado a lado com obras comissionadas de Jennifer Tee (Holanda, 1973), Leda Catunda (Brasil, 1961), Sarah Lucas (UK, 1962) e Tal Isaac Hadad (França, 1976), entre outros. Segundo a divulgação da Bienal, uma das particularidades da proposta de Borges está nas ativações que ocorrerão ao longo da duração da mostra. 

Abaixo, obras de alguns dos artistas convidados por Sofia para integrar sua proposta:

 

 

piscina na harper's bazaar

É sempre uma surpresa muito boa quando recebemos um email de alguém interessado na Piscina e querendo espalhar o trabalho das artistas por aí. Mês passado foi o Felipe Stoffa, editor da seção de arte da Harper's Bazaar Brasil que entrou em contato com a gente. 

Além de responder a uma entrevista, o Felipe nos pediu para fazer uma seleção de obras de algumas meninas da plataforma que lidam com corpo, gênero e sexualidade, já que a revista como um todo estava pautada pela temática do "erótico".

O resultado foi uma matéria bem bacana, com destaque para o trabalho de quatro artistas: Luisa Gallegari, Jade Marra, Fernanda Liberti e Gabriela Silveira:

ateliê #2 | Fernanda Vallois

Em uma noite de sábado, a designer e fotógrafa carioca Fernanda Vallois nos recebeu na sua casa em São Paulo e falou sobre seus processos de trabalho, sua relação com a fotografia comercial e autoral, e com as pessoas que fotografa. Alguns trechos da nossa conversa estão aqui:

vallois8.jpg

P: Você é formada em design, certo? Trabalha com isso atualmente?
F: Eu trabalho freelancer. Faço design, site, estampa, foto, vídeo. Eu gosto porque eu sempre gostei de fazer muitas coisas, e aí eu posso explorar tudo. Eu gosto muito de trabalhar sozinha em casa, trabalho muito de madrugada. Acho que tem um silencio, uma vibração boa. Troco muito a noite pelo dia. Mas a fotografia tem isso que me obrigar a sair de casa, a trocar com as pessoas... o design é meio solitário. E a foto tem a tensão do momento, se você não capta na hora, não está ali e pronto. E no design, se você quiser, o trabalho é infinito.
 

vallois7.jpg

P: Qual a diferença do seu trabalho comercial e do seu trabalho autoral com fotografia?
F: Quando comecei a fazer comercial acho que isso atrapalhou um pouco meu trabalho autoral. Porque eu fazia muito no feeling, só analogico, e muita coisa saia “errada”, e eu adorava. Agora trabalhando com o digital comercialmente, isso me trouxe uma preocupação mais técnica que eu não tinha. Que mesmo quando eu tento ficar mais solta de novo, sinto que não consigo voltar mais àquele lugar, àquela liberdade. Às vezes eu acho que o meu melhor trabaho eu já fiz, que é esse do começo.

P: Como era o seu processo nesses primeiros trabalhos?
F: Sempre partia do meu interesse em fotografar uma pessoa específica. Eram ensaios mais ou menos montados (eu encontrava um lugar e sabia mais ou menos o que queria fazer).
Mas mesmo gostando dessas fotos hoje em dia, na hora eu sempre fico com a sensação de que tudo saiu uma merda... Aí eu dou um tempo, e acabo gostando só depois.

P: A tua inspiração parece sempre vir da realidade – de pessoas e lugares que você encontra.
F: Na adolescência eu era muito fechada, não tinha amigos. Eu tinha vontade, mas eu era tímida, insegura, e não conseguia. De uns cinco ou seis anos pra cá, eu sinto que tenho conseguido me conectar até fácil com as pessoas. Hoje em dia até me chamam de “galerosa”, alguém que está sempre com muitas pessoas. Eu presto muita atenção nas pessoas, e acho que elas ficam confortáveis comigo hoje em dia.
Embora essa mudança tenha me feito bem, eu acho que essa estranheza que eu tinha, essa coisa sem casca, era interessante pro trabalho. Tento buscar um pouco disso no meu trabalho hoje em dia.
Eu não tenho uma resposta, por que eu faço as coisas que eu faço. Mas acho que tem a ver com essa criança que eu fui, tímida, com poucos amigos, e que odiava ser fotografada. Acho que tá tudo ali no meu trabalho. E eu sempre acabo fotografando pessoas como eu, mulheres, da minha idade. Também me pergunto o que isso quer dizer.

vallois4.jpg

P: Como é seu ritmo de trabalho? Você se cobra muito nesse sentido?
F: Eu me cobro muito, mas não tenho um padrão. Ano passado eu não consegui fazer muito trabalho autoral, e pensei “poxa, eu preciso me dar esse espaço”. Esse ano eu tô nessa onda, de exercitar mais as coisas que eu quero desenvolver no meu trabalho. Eu não tenho uma frequência estabelecida, funciona mais assim: às vezes me dá um desespero, e eu tenho que fotografar.

P: Você já sentiu alguma dificuldade relacionada a gênero na carreira?
F: Ser mulher lésbica nunca me atrapalhou, antes dessas discussões virem a tona eu nem pensava nisso. Acho que tive sorte de ter muitos amigos e trabalhar num meio onde sou aceita, respeitada. Mas no geral, eu nunca senti tanto isso, e agora na verdade eu tenho sentido os benefícios do discurso feminista, dos movimentos de inclusão, etc -  talvez antes eu não sentisse porque eu não era nem considerada. Então nesse momento tá sendo ótimo. Marcas femininas tem buscado essa coerência de ter mulheres por trás das campanhas, por exemplo.

P: Você planeja a sua carreira artística? Como se vê no futuro?
F: Eu vou muito com o flow. Não me esforço pra estar no meio das artes, em uma galeria, etc. Eu coloco a minha energia em criar e as coisas vão acontecendo. Essa coisa de galeria tem uma seriedade que eu não sei se eu quero, fica mais pesado. Eu me sinto mais híbrida, misturo muito pessoal com comercial, design, arte, fotografia. Eu não me vejo só em um meio específico. Gosto de fotolivro, mas não me vejo tanto nesse mundo do fotolivro, entende?
Eu não penso muito a longo prazo, “vou desenvolver um assunto por um tempo”. Acho que o meu trabalho tem uma consistência, as coisas acabam se conversando, fazendo sentido. Mas eu nunca planejei tanto isso. Agora tenho pensado em
persistir em um assunto por mais tempo, acompanhar alguma coisa de fato. Quero ficar fotografando os frequentadores da Turma OK, que é uma boate gay no rio, por um período maior.

P: Que são pessoas que você não conhece.
F: Eu tava ouvindo a Annie Leibovitz e ela tava falando “eu não acredito que o trabalho do fotógrafo é deixar alguém a vontade”. Em parte é algo que eu tento fazer, mas eu acredito nisso no sentido que você vai trabalhar com o que a pessoa te der, mas você não vai transformar ela em outra coisa. Eu não super dirijo as pessoas, alguns fotógrafos são super cênicos, dirigem as pessoas como bonecos “faz isso, faz aquilo”. Eu sugiro algumas coisas, mas prefiro que seja mais orgânico.

P: É legal pensar o teu trabalho a partir disso. Que você não tem essa postura diante da fotografada: “fica tranquila, eu tenho tudo sob controle”. Você também tá tensa, tem duas tensões em jogo.
F: Eu tenho que tomar coragem de ir lá fotografar a pessoa. E nem tem a ver com intimidade. Eu não consigo fotografar a minha namorada agora, por exemplo. Mas eu tento não fugir. É tenso, mas eu não quero deixar de fazer. Eu vivo nessa luta.
Tem gente que se entrega muito, e tem gente que é mais desafiadora. Em trabalho comercial eu sinto muito isso. Tem as modelos, que sabem como se comportar diante da câmera (a nova geração se conhece muito, cresceu se fotografando, fazendo selfie, tem domínio sobre o corpo e a própria imagem).
Em trabalho comercial eu sentia mais a tensão de me sentir amadora. Depois eu fui aprendendo mais, sobre iluminação, equipamentos, e ajudou muito a dar mais segurança.

P: Voltamos a essas polaridades Digital X Analógico, Comercial X Autoral.
F: Às vezes enquanto tô trabalhando eu tento separar um pouco: isso aqui é mais editorial, isso aqui é mais um retrato. Mas às vezes se mistura. No fim eu acho que o que é mais forte pra mim é o trabalho mais autoral. Eu me sinto um pouco aprisionada com o digital. Ajustes de foco, luz, etc. Com o analógico eu me solto mais, não vejo o que tô fazendo, ele favorece essa liberdade. Me protege de mim (eu fico mais intuitiva) e a pessoa que eu tô fotografando também. Ela fica mais confortável, porque sabe que eu não tô ali avaliando o trabalho no visor da câmera o tempo todo.
Eu acho a minha linguagem mais podrona (o desfoque, o “erro”), difícil de comercializar. Então é um desafio meu agora, incorporar essas coisas, me colocar mais ali, no trabalho que eu faço pros outros.
 

artistas-curadoras na 33a Bienal de São Paulo [série] - 2 de 4

Continuando nossa série de posts sobre as artistas-curadoras da 33a Bienal de São Paulo - Afinidades Afetivas, hoje falaremos sobre a proposta Stargazer II [Mira-estrela II] de Mamma Andersson.

O trabalho de Karin Mamma Andersson (n.1962, Luleå, Suécia) é inspirado pelo imaginário de filmes, cenografias de teatro e interiores, que resultam em composições expressivas e oníricas. Suas principais referências incluem a pintura figurativa nórdica da virada do século XX, arte "folk", local ou vernacular. Sua temática envolve frequentemente paisagens melancólicas e cenários domésticos onde grossas camadas de tinta se alternam a texturas de cores lavadas. Andersson graduou-se na Royal University College of Fine Arts, em Estocolmo, onde vive e trabalha até hoje.

Abaixo, uma seleção de trabalhos da artista e um mini-doc de 24 minutos em que Andersson mostra seu estúdio, fala sobre suas influências e sobre seu processo criativo:

Em Stargazer II [Mira-estrela II], Andersson apresenta seu próprio trabalho em diálogo com obras de artistas que inspiraram e influenciaram sua produção, dentre eles: ícones russos do século XV, Henry Darger (EUA, 1892-1973)* e Dick Bengtsson (Suécia, 1936­-1989), - artista sueco que criava a partir de um processo bem semelhante ao de Andersson - ; a cineasta Gunvor Nelson (Suécia, 1931) e o piloto de caça e artista sonoro Åke Hodell (Suécia, 1919-2000). 

Em um breve contato com as obras dos artistas selecionados por Andersson, fica evidente a ressonância que estes têm em seu trabalho. “Estou interessada em artistas que trabalham com a melancolia e a introspecção como um modo de vida e uma forma de sobrevivência”, afirma.

 

* para quem quiser saber mais sobre Henry Darger, tem esse video no youtube e esta matéria do The Guardian, contando sua trajetória de vida mais detalhadamente e o link para o documentário de 2004 de Jessica Yu, citado na matéria disponível aqui. 

artistas-curadoras na 33a Bienal de São Paulo [série] - 1 de 4

Recentemente, a Fundação Bienal divulgou as propostas expositivas dos 7 artistas-curadores selecionados por Gabriel Pérez-Barreiro, curador da 33a edição da Bienal Internacional de São Paulo.

Em Afinidades Afetivas, título escolhido por Pérez-Barreiro para a Bienal, que tem abertura marcada setembro deste ano, a proposta curatorial busca valorizar a fruição individual das obras e não um recorte que direciona a uma compreensão previamente estabelecida. 

Para isso, o curador propôs 12 projetos individuais e 7 mostras coletivas organizadas por 7 artistas-curadores selecionados, que segundo ele, têm “total autonomia na concepção de suas mostras, tanto em relação uns aos outros quanto à curadoria geral. As únicas limitações impostas a eles foram de ordem prática, relativas a orçamento e ao uso do Pavilhão da Bienal”.

São eles: Aos nossos pais, de Alejandro Cesarco; sentido/comum  de Antonio Ballester; O pássaro lento de Claudia Fontes; Stargazer II [Mira-estrela II] de Mamma Andersson; A infinita história das coisas ou o fim da tragédia do um de Sofia Borges; Waltercio Caldas e Wura-Natasha Ogunji.

Cada vez mais interessadas na curadoria voltada às práticas de artistas mulheres, resolvemos apresentar em uma série de 4 posts aqui no blog, as propostas das artistas-curadoras convidadas, de modo a conhecer o trabalho delas e dos artistas que integram suas propostas expositivas.

Começaremos a série com O pássaro lento, proposta de Claudia Fontes, artista nascida em Buenos Aires (Argentina, 1964)  e que agora vive e trabalha em Brighton, Inglaterra. 
Através de sua obra Fontes investiga modos alternativos da percepção da cultura, natureza, história e sociedade que derivam dos processos de descolonização, sejam eles pessoais, interpessoais ou sociais. 

Em um de seus trabalhos mais recentes, uma instalação em grande escala para o pavilhão argentino na La Biennale di Venezia de 2017, estão representados em uma cena congelada, um cavalo, uma mulher e um jovem que lidam de maneiras diferentes com o mesmo paradoxo: uma crise se desenvolve e seus sintomas, são, ao mesmo tempo, o problema que os causa. The Horse Problem, é inspirado em ícones culturais do século XIX, sobre os quais a identidade cultural argentina foi artificialmente construída. Saiba mais sobre a obra aqui.

Já em sua proposta para a 33a edição da Bienal Internacional de São Paulo Fontes trata sobre a lentidão.  O ponto de partida de O Pássaro Lento surge quando a artista se pergunta sobre em qual situação um pássaro sentiria vertigem e para a artista, isso ocorreria quando a velocidade em que voa é tão lenta que corre o risco de cair.  Em contraponto ao fetiche moderno de velocidade, a artista e os artistas por ela convidados, e irão apresentar trabalhos de temporalidade expandida.  “[…] nossa espécie vem sendo treinada desde a infância para desprezar a vagarosidade e desejar rapidez. Como resultado, todos nós agora temos dificuldade de imaginar outros meios de estar consigo mesmo e com os outros”.

Com exceção de Roderick Hietbrink (Holanda, 1975), todos os artistas convidados irão desenvolver obras comissionadas especialmente para a ocasião: Ben Rivers (UK, 1972), Daniel Bozhkov (Bulgária, 1959), Elba Bairon (Bolívia, 1947), Katrín Sigurdardóttir (Islândia/EUA, 1967), Pablo Martín Ruiz (EUA, 1964), Paola Sferco (Argentina, 1974), Sebastián Castagna (Argentina, 1965) e Žilvinas Landzbergas (Lituânia, 1979).

Veja na galeria abaixo, uma seleção de trabalhos dos artistas:

exercício de curadoria: hysteria

A Hysteria é uma plataforma feita por mulheres, sobre mulheres e para mulheres, que a Piscina tem a honra de fazer parte. Durante todos os meses de 2018, a Piscina fará uma curadoria especial para o Instagram da Hysteria, com imagens de obras das artistas da Pisci, a partir de um tema proposto por nós. 

Em janeiro, o tema foi Corpo:

a dor, o dorso, a pele, o osso.
a carga de vida.

o corpo feminino se oferece à imagem: três poses.

e uma obra que, aqui, por contraste, parece comentar:

mas não esqueça do corpo da mulher padronizado, fragmentado, despersonalizado, substituível.

Captura de Tela 2018-02-27 às 08.57.30.png
Captura de Tela 2018-02-27 às 08.57.44.png
Captura de Tela 2018-02-27 às 08.57.54.png

E esta semana saiu o tema de fevereiro, Panorama:

Captura de Tela 2018-02-28 às 09.09.50.png

vastidão a ser explorada, vivida.
ver e ser o mundo através do seu próprio horizonte.
a linha
que separa o céu da terra, do mar.
a linha
que separa o resto do universo de si mesmo.
o horizonte-elástico
moldado pelo tempo, pelas circunstâncias.
ora se retrai e é tão restrito, ora se expande e ganha mundo.

 

Captura de Tela 2018-02-28 às 09.10.03.png
Captura de Tela 2018-02-28 às 09.10.48.png

Estamos curtindo tanto o exercício e os temas que têm surgido, que a vontade é de desdobrar esta experiência em outras coisas, seja um fôlego, uma mini-publicação ou exposição. 

Tem sido muito bacana, no sentido de que nós três (Paula, Nataly e Ana) fazemos uma curadoria-relâmpago, o que nos interessa bastante como exercício. Tudo acontece online e à distância, o que lembra os primórdios da Piscina, em 2015, e já faz parte da essência do nosso projeto.

"Girl on Girl - Art and photography in the age of the female gaze", de Charlotte Jansen

Primeiro uma confissão. Comprei o livro Girl on Girl - Art and photography in the age of the female gaze, de Charlotte Jansen, impulsivamente, porque eu tinha um crédito na Amazon que precisava usar. Confirmado o pedido, me veio a leve sensação de que talvez ele fosse só um livro bonito para colocar na minha estante. E de fato. É inegável que ele ficou bonito na minha estante. Porém, fui surpreendida pelos textos sucintos, mas apurados, que acompanham cada um dos perfis das fotógrafas, comentando criticamente como essas imagens exploram questões relacionadas à identidade, feminilidade, sexualidade e feminismo. 

_1310844.JPG

O livro apresenta o trabalho de 40 fotógrafas contemporâneas de diferentes nacionalidades, etnias e estéticas. Entre elas, a quase-clichê Petra Collins, a ativista sul-africana Zanele Muholi, a chinesa Pixy Liao, a norueguesa Tonje Birkeland e a marroquina Lalla Essaydi. Apesar do claro esforço em contemplar uma diversidade cultural, a maior parte das artistas vive e trabalha nos Estados Unidos e na Europa e não há nenhuma artista latino-americana na lista (faltou a Charlotte dar uma olhadinha na Piscina, rs), o que situa as artistas em um contexto específico de criação e difusão. 

O foco são mulheres que fotografam mulheres, e as retratadas são as próprias artistas, amigas, namoradas e familiares, modelos ou mulheres de determinada idade ou contexto social. Apesar das inúmeras diferenças de abordagem, constantemente demarcadas por Jansen, o que essas fotógrafas possuem em comum é a tentativa de estabelecer uma nova forma de olhar para as mulheres, que possa, em algum nível, contrabalancear a primazia do olhar masculino. 

No século XX, fotógrafas como Cindy Sherman, Diane Arbus, Francesca Woodman, Vivian Meier e Nan Goldin começaram a ser reconhecidas, abrindo caminho para a nova geração que, influenciadas por esses nomes, seguem explorando a fotografia como forma de expressão, em uma era marcada pela proliferação incessante de imagens nos meios digitais. 

Um dos aspectos mais interessantes do livro é o recorte geracional, comentando sobre o trabalho de artistas que nasceram com acesso ao mundo virtual e utilizam a internet como veículo de divulgação e objeto de inspiração para suas criações. Não sem apontar as inúmeras contradições que essas artistas confrontam, ao ver que as suas tentativas de questionar o uso do corpo feminino na publicidade, por exemplo, terminam sendo apropriadas por esse mercado. Mesmo porque, muitas delas trabalham nesse contexto, em paralelo às suas atividades artísticas. 

Ainda sim, a busca por novas formas de representação, empreendidas por mulheres que tomam o controle da produção das suas próprias imagens, apresenta muitos aspectos positivos no sentido de minimizar o desequilíbrio provocado pela construção masculina. Vale ressaltar, que o “olhar feminino” não se refere unicamente a representar de forma mais “verdadeira” os corpos, ideias e experiências das mulheres, mas em ver o mundo de forma diferente. 

O fato de ser uma artista mulher não significa se identificar obrigatoriamente com um discurso feminino ou feminista. Inclusive, muitas das fotógrafas entrevistadas por Jansen não se sentem confortáveis com esse rótulo, que só cumpre a função de restringir os seus trabalhos. 

Uma artista mulher é, antes de tudo, uma artista. E como tal, ela tem a possibilidade de expressar uma infinidade de coisas, como ela vê e cria conexões com o mundo que nos rodeia, um privilégio que os artistas homens tiveram durante séculos. E a beleza de Girl on girl definitivamente não se restringe à minha estante, mas em permitir que vislumbremos algumas dessas infinitas coisas.

Ana Luiza 

"Por que não houve grandes mulheres artistas?" de Linda Nochlin

Dentre outras coisas, aqui no blog da Piscina iremos compartilhar ensaios, artigos, livros e notícias que trocamos entre nós em nossas conversa online. Como muita coisa acaba se perdendo, resolvemos deixar algumas destas leituras reunidas e registradas aqui para que mais gente possa ter acesso e também para que nós possamos consultar eventualmente. A ideia é inclusive deixar o canal aberto para que amigas, conhecidas e artistas possam compartilhar suas leituras e que possamos criar um banco de textos relevante e acessível. 

piscina-textos-linda-nochlin-ediçoesaurora1.jpg

Para inaugurar o primeiro textos da Piscina, começaremos com o artigo Por que não houve grandes mulheres artistas?, de Linda Nochlin. Até maio de 2016, o texto escrito originalmente em 1971, na ARTnews, não tinha sido traduzido para o português. Felizmente, a edições Aurora editou e publicou o artigo, que teve tradução de Juliana Vacaro (autorizada e festejada pela autora).  

Em seu texto Linda Nochlin pontua que a pergunta "Por que não houve grandes mulheres artistas?" esconde a verdadeira natureza da questão e já pressupõe a própria resposta. Segundo a autora, nossa percepção de como as coisas são no mundo está condicionada e deturpada pela forma como enunciamos as questões e cabe a nós nos perguntarmos quem está formulando essas questões e a que propósito elas servem.

Deste modo a questão das mulheres nas artes não deve ser vista pelos olhos de uma elite dominante masculina, mas no lugar disso, "as mulheres devem se conceber potencialmente - se não efetivamente - como sujeitos iguais, e devem estar dispostas a olhar para os fatos de sua condição cara a cara, sem vitimização ou alienação".

Segundo Linda, de fato não houve nenhuma grande mulher artista como "não houve também nenhum grande pianista de jazz lituano ou um grande tenista esquimó, e não importa o quanto queríamos que tivesse existido. [...] não existem mulheres equivalentes a Michelangelo, Rembrandt, Delacroix, Cézanne, Picasso ou Matisse, ou mesmo nos tempos recentes a Kooning ou Warhol, assim como não há afroamericanos equivalentes aos mesmos." Se existissem, pelo que então as feministas estariam lutando?

As coisas nas artes e em outras áreas são desestimulantes e opressivas "para todos aqueles que, assim como as mulheres, não tiveram a sorte de nascer brancos, preferencialmente de classe média e acima de tudo homens", diz a autora. E o problema não estaria em nossos hormônios ou qualquer outro traço biológico ou psicológico, mas sim nas instituições e em nossa educação. 

As concepções falsas envolvidas na pergunta "por que não houve grandes mulheres artistas?" destacam suposições ingênuas e distorcidas sobre o fazer artístico, dentre as quais Linda aponta a mitologia do "Grande Artista", - o ser único, precoce, dotado de um grande talento e uma aura mágica -, como sendo uma das principais. Esse tipo de mitologia do gênio artístico deixa em segundo plano as influências sociais, contexto histórico e estruturas institucionais nas quais o artista tenha vivido e contribui para a "naturalização" da concepção de que a falta de êxito das mulheres nas artes se dá pois estas não possuem talento para a arte.

Caso fossem avaliadas as reais condições na qual a produção de arte se deu, perguntas mais interessantes poderiam ser feitas, tais como: de que classes sociais era proveniente a maior parte dos artistas em diferentes momentos históricos? Qual é a proporção de artistas que veio de famílias nas quais seus pais ou parentes próximos eram artistas? Por que  não houve grandes artistas oriundos da aristocracia? 

Considerando que as habilidades ou inteligências são construídas desde o momento em que uma criança vem ao mundo, caberia aos estudiosos e historiadores de arte abandonar a noção de que a grande arte provém do gênio individual com habilidades inatas e examinar que o contexto social e os elementos da estrutura social determinados por instituições específicas, pressupõem o desenvolvimento, a natureza e a qualidade do fazer artístico.  . 

Vale muito a pena a leitura! 

Você pode fazer o download do pdf ou adquirir a versão imprensa por apenas 8 reais aqui neste link

Paula

ateliê #1 | Giulia Puntel

Esta é a primeira de uma série de visitas à ateliês e entrevistas em que o objetivo é conhecer as artistas que fazem parte da Piscina e se aproximar de seu processo de trabalho. Em um sábado nublado, conhecemos a Giulia Puntel, que nos abriu sua casa, falou do seu desenvolvimento de pesquisa mais recente, processo de trabalho e de suas referências. Compilamos aqui alguns trechos da nossa conversa:

IMG_7600_web.jpg

Piscina: Você pode contar pra gente um pouco sobre a sua formação, suas experiências?

Giulia Puntel: Me formei em Artes Plásticas na escola Guignard - UEMG, em Belo Horizonte, fiz artes plásticas mas queria ter feito cinema, então desde o início comecei a trabalhar com isso, trabalhei um ano em uma produtora e depois que saí de lá tive um envolvimento direto com o cinema independente que estava sendo feito em Minas, daí até hoje to nessa rs. Ainda não consegui fazer um trabalho meu que juntasse essas duas linguagens, mas tenho projetos, ideias, vontades...alguma hora elas vão se convergir. Mas posso dizer que a maior parte das minhas pinturas surgiram a partir de filmes que vi, ou de sensações que tive a partir de algum. 
Me mudei pra SP no início desse ano pra ter um contato maior com a pintura, os artistas, galerias, museus e está tudo rolando, acontecendo no tempo que tem que acontecer mesmo. 

IMG_7570_web.jpg

Piscina: Como você percebe a mulher no cenário artístico hoje?

Giulia Puntel: Eu sinto que muitas mulheres acabam ficando nesse lugar mais seguro da ilustração, que é o lugar do saber fazer, da técnica. Eu adoro ilustração, ilustro também e vários artistas que eu adoro são ilustradores. Mas eu gostaria de ver mais mulheres desenvolvendo. Arte é cutucar a ferida. Sinto que às vezes é falta de pegar na mão e falar: Você pode mais. Vamos juntas, vamos estudar. Não para aqui, esse é só o primeiro passo.

Piscina: Qual a sua pesquisa atual?

Giulia Puntel: Eu estou numa pesquisa sobre opacidade. Antes eu tava pensando muito sobre distopia - usando essas figuras humanas que eu sempre uso e pensando no futuro, mas ao mesmo tempo falando sobre mim, sobre como eu me sinto diante do mundo. Aí comecei a falar sobre disfarce e brevidade das coisas. Essas naturezas mortas e as flores ensacadas tem a ver com isso. Gosto muito da estranheza. Eu tenho muito medo de certezas, de pessoas que sabem de tudo. Eu vejo a pintura no lugar do questionamento, do olhar e não saber. Da sensação. O que eu tenho tentado fazer é sempre colocar uma carga de sensação na minha pintura, uma sensação que eu tenho com a vida.

IMG_7586_web.jpg

Piscina: Como é o seu processo de criação?

Giulia Puntel: Não existe uma regra de como ser artista. Eu tô há quatro meses só pintando, e aí rola uma culpa. Quando tá tudo certo: eu só preciso produzir. Mas acho que essa culpa vai rolar sempre, ainda mais quando você ainda não tem uma validação, não é de uma galeria, etc. Eu acho que com pintura você tem que estar ali todo dia. Mesmo que você não pinte, só lave um pincel. Mas você tem que estar ali. Inspiração existe, mas ela precisa do seu ritmo.

Quais artistas você citaria como referências para o seu trabalho?

Giulia Puntel: Rothko (meu sonho ver ao vivo - conheço gente que viu e desabou de chorar. Ao vivo dá pra sentir a energia, tem uma misticidade. A carga que o pintor coloca ali importa).
Jenny Saville era alguém pra quem eu olhava muito quando comecei a pintar. Sinto que estou me distanciando um pouco dela, mas ainda é alguém forte pra mim.
Michaël Borremans, Adrian Ghenie, Eduardo Berliner e Lynette Yiadom-Boakye também são grandes referências - olho sempre.
Fora isso,  me inspiro totalmente no cinema e nos filmes que vejo. Ultimamente tenho visto a obra da Chantal Akerman, da Claire Denis, revisto filmes do Apichatpong, Jem Cohem e do Leos Carax, além da poesia que cada filme tem, to sempre olhando pra fotografia, afinal daí que vem várias das imagens que levo depois para a pintura.