ateliê #1 | Giulia Puntel

Esta é a primeira de uma série de visitas à ateliês e entrevistas em que o objetivo é conhecer as artistas que fazem parte da Piscina e se aproximar de seu processo de trabalho. Em um sábado nublado, conhecemos a Giulia Puntel, que nos abriu sua casa, falou do seu desenvolvimento de pesquisa mais recente, processo de trabalho e de suas referências. Compilamos aqui alguns trechos da nossa conversa:

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Piscina: Você pode contar pra gente um pouco sobre a sua formação, suas experiências?

Giulia Puntel: Me formei em Artes Plásticas na escola Guignard - UEMG, em Belo Horizonte, fiz artes plásticas mas queria ter feito cinema, então desde o início comecei a trabalhar com isso, trabalhei um ano em uma produtora e depois que saí de lá tive um envolvimento direto com o cinema independente que estava sendo feito em Minas, daí até hoje to nessa rs. Ainda não consegui fazer um trabalho meu que juntasse essas duas linguagens, mas tenho projetos, ideias, vontades...alguma hora elas vão se convergir. Mas posso dizer que a maior parte das minhas pinturas surgiram a partir de filmes que vi, ou de sensações que tive a partir de algum. 
Me mudei pra SP no início desse ano pra ter um contato maior com a pintura, os artistas, galerias, museus e está tudo rolando, acontecendo no tempo que tem que acontecer mesmo. 

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Piscina: Como você percebe a mulher no cenário artístico hoje?

Giulia Puntel: Eu sinto que muitas mulheres acabam ficando nesse lugar mais seguro da ilustração, que é o lugar do saber fazer, da técnica. Eu adoro ilustração, ilustro também e vários artistas que eu adoro são ilustradores. Mas eu gostaria de ver mais mulheres desenvolvendo. Arte é cutucar a ferida. Sinto que às vezes é falta de pegar na mão e falar: Você pode mais. Vamos juntas, vamos estudar. Não para aqui, esse é só o primeiro passo.

Piscina: Qual a sua pesquisa atual?

Giulia Puntel: Eu estou numa pesquisa sobre opacidade. Antes eu tava pensando muito sobre distopia - usando essas figuras humanas que eu sempre uso e pensando no futuro, mas ao mesmo tempo falando sobre mim, sobre como eu me sinto diante do mundo. Aí comecei a falar sobre disfarce e brevidade das coisas. Essas naturezas mortas e as flores ensacadas tem a ver com isso. Gosto muito da estranheza. Eu tenho muito medo de certezas, de pessoas que sabem de tudo. Eu vejo a pintura no lugar do questionamento, do olhar e não saber. Da sensação. O que eu tenho tentado fazer é sempre colocar uma carga de sensação na minha pintura, uma sensação que eu tenho com a vida.

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Piscina: Como é o seu processo de criação?

Giulia Puntel: Não existe uma regra de como ser artista. Eu tô há quatro meses só pintando, e aí rola uma culpa. Quando tá tudo certo: eu só preciso produzir. Mas acho que essa culpa vai rolar sempre, ainda mais quando você ainda não tem uma validação, não é de uma galeria, etc. Eu acho que com pintura você tem que estar ali todo dia. Mesmo que você não pinte, só lave um pincel. Mas você tem que estar ali. Inspiração existe, mas ela precisa do seu ritmo.

Quais artistas você citaria como referências para o seu trabalho?

Giulia Puntel: Rothko (meu sonho ver ao vivo - conheço gente que viu e desabou de chorar. Ao vivo dá pra sentir a energia, tem uma misticidade. A carga que o pintor coloca ali importa).
Jenny Saville era alguém pra quem eu olhava muito quando comecei a pintar. Sinto que estou me distanciando um pouco dela, mas ainda é alguém forte pra mim.
Michaël Borremans, Adrian Ghenie, Eduardo Berliner e Lynette Yiadom-Boakye também são grandes referências - olho sempre.
Fora isso,  me inspiro totalmente no cinema e nos filmes que vejo. Ultimamente tenho visto a obra da Chantal Akerman, da Claire Denis, revisto filmes do Apichatpong, Jem Cohem e do Leos Carax, além da poesia que cada filme tem, to sempre olhando pra fotografia, afinal daí que vem várias das imagens que levo depois para a pintura.