anaïs karenin | green scapes in grey foams | projeto estufa

Foi em uma sexta-feira pré segundo turno das eleições presidenciais que conheci a Anaïs-Karenin. A convite da curadoria do Projeto Estufa, parte da 23a edição do SPFW - São Paulo Fashion Week e composta pela cenógrafa Daniela Thomas e pela artista Mari Nagem, Anaïs apresentou a instalação Green Scapes In Grey Foams, ao lado de obras de outros 16 artistas contemporâneos.

Por se tratar de um evento ligado diretamente à moda, quando Anaïs nos convidou para ver seu novo trabalho, me lembrei de imediato de uma outra instalação da qual vi apenas registros fotográficos: Comodo INA (2016) apresenta tecidos, vestimentas e modelagens desconstruídas dispostas no espaço junto a uma máquina de costura.

Mas a proposta de Anaïs para o Projeto Estufa tem menos a ver com tecidos e mais a ver com o espaço. Em Green Scapes In Grey Foams a artista está interessada em como a arquitetura interfere sobre o ambiente, sobre os nossos corpos e subjetividades ao mesmo tempo em que investiga sobre como a nossa relação com o ambiente construído e com os materiais diz muito sobre a existência e comportamento humanos.

Em ressonância com o intenso momento político, a instalação de Anaïs evidencia contrapontos, expõe tensões e promove diálogos entre traços aparentemente opostos. Ao longo da nossa conversa, pude perceber que os diferentes na obra da artista buscam cada vez mais se hibridizar, evidenciando, cada qual, a sua essência.

Logo à primeira vista, a oposição entre natureza (orgânico) e ambiente construído (artificial) se sobressai através das plantas ornamentais, que, penduradas com as raízes voltadas para cima, formam uma massa verde que se espalha organicamente pela estrutura metálica. Esta, por sua vez, modular e meticulosamente calculada para sustentar o peso da instalação, dialoga com o espaço do galpão industrial em que se insere.

Ao adentrarmos o espaço delimitado pela estrutura metálica nos deparamos com estruturas verticais de diferentes tamanhos compostas por cubos de cimento se equilibram uns sobre os outros. Os blocos ora são lisos evidenciando a sua geometria "artificial" criada pelo homem, ora apresentam ranhuras e desgastes, assemelhando-se a pedras e rochas encontradas na natureza. Os blocos que compõem a instalação são todos brancos, exceto por um deles, o maior e mais liso, que se apresenta na cor de cimento. Destacando o rigor técnico ali desempenhado, é também o único que não foi confeccionado pela artista, e sim pelo seu avô.

A ancestralidade e a herança familiar permeiam intensamente a pesquisa de Anaïs, que busca através do gesto do avô, um retirante nordestino que veio a São Paulo trabalhar como pedreiro, transpor diferentes realidades em seu trabalho. O barro seco do sertão toca o cimento cinza e branco das cidades. Se em alguns elementos o barro parece sustentar o cimento, em outros o cimento parece esmagar ou apoiar-se no barro.

Essa relação entre os materiais pode nos remeter às relações dos migrantes na cidade grande. Como foram acolhidos? (Foram acolhidos?) Como foram inseridos na cidade? Não seriam as grandes cidades uma massa de concreto carregada do gesto de tantos migrantes? Os elementos de tecido tensionados e pintados de barro, também podem nos remeter a essa relação. A tensão de ser um retirante em uma cidade grande, condição que pesa ao indivíduo, que então tensiona-se, coloca-se no limite e tem sua essência coberta a fim de pertencer ao novo ambiente.

Ao criar um espaço híbrido que explicita dicotomias – natural/construído, orgânico/artificial, vegetal/mineral –, a artista busca observar a reação dos sujeitos que interagem com a obra ao deslocar os materias de seus contextos habituais e usos óbvios, que podem limitar a nossa percepção da realidade.

E, inserida em um evento multidisciplinar, e não em um espaço de arte convencional, a instalação propicia relações inusitadas da parte do público, que por vezes se apoia nas estruturas para tirar selfies com as plantas ornamentais como fundo. Prática esta, cada vez mais vista também em galerias e museus.

Outro aspecto importante de se observar em Green Scapes In Grey Foams é o modo como a artista incorpora conceitos da filosofia e estética japonesas. Temas centrais em sua pesquisa recém finalizada de mestrado, Anaïs traz os conceitos de Kintsugi e Shizen.

Com detalhes em dourado em algumas de suas obras, a artista remete ao Kintsugi (técnica tradicional japonesa de reparo de cerâmicas quebradas com ouro) para chamar atenção para as coisas mínimas, pequenos detalhes normalmente sem relevância e que passam desapercebidas. Já o shizen (palavra japonesa que se traduz como natureza mas que também pode ser entendida como toda a criação) remete ao animismo – crença de que todas as formas da natureza (animais, pessoas, plantas, fenômenos naturais, etc)  possuem uma alma conceito que perpassa a cultura indígena brasileira e que está também presente na raiz da cultura sertaneja e nordestina.

Ao trazer materiais artificiais e orgânicos para sua obra, a artista busca tratar sobre a vida que existe em todas as coisas, elementos e materiais, trazendo uma visão holística para o momento atual em que, inseridos em grandes cidades, imersos em compromissos, agitação e discussões constantes, acabamos desconectados da nossa verdadeira essência.

Paula