ateliê aberto | pivô pesquisa | parte 1: gabriella garcia

No dia 11 de agosto, aconteceu a décima segunda edição do Ateliê Aberto, projeto de residência artística que acontece anualmente na Pivô e do qual participaram as artistas Gabriella Garcia e Giulia Puntel. 

Acompanhávamos o trabalho de ambas através do Instagram desde que elas começaram a fazer parte da Piscina, mas conhecemos pessoalmente primeiro a Gabriella, por ocasião da montagem e da abertura da exposição que fizemos ano passado na Galeria Recorte e mais tarde, conhecemos a Giulia quando demos início às entrevistas com as artistas, no final de 2017. 

Neste curto hiato de tempo, mesmo acompanhando virtualmente, era muito visível o amadurecimento do trabalho das duas e não foi tão surpreendente vê-las como participantes da residência da Pivô. Logo na primeira oportunidade de Conversa Pública, resolvi ver de perto o que elas estavam desenvolvendo. 

Embora tenha começado sua carreira artística com trabalhos essencialmente de colagem, Gabriella Garcia foi passando aos poucos do bidimensional para o tridimensional ao construir peças escultóricas que eram quase como assemblages e sobreposições de materiais, mas que ainda remetiam bastante à técnica anterior, nesse movimento "aglutinador" inerente da colagem, que sobrepõe e junta camadas. 

Mesmo já tendo visto online algumas das experiências de Gabriella com o tridimensional, fiquei surpresa ao ver uma certa influência cenográfica em seu trabalho, o que resultou em instalações, como a instalação Isso É O Que Acontece Quando Duas Substâncias Colidem feita para o Dekmantel Festival 2018; e em peças escultóricas que se inserem e se relacionam com seu entorno, como é o caso da Suspended Body (2018), peça em chapa metálica suspensa, desenvolvida para o ODD Fest, estrategicamente posicionada para vibrar e reverberar o som. 

Durante este primeiro encontro, me pareceu que a materialidade é central na pesquisa da artista e que durante o ateliê ela pode explorar questões como bidimensionalidade x tridimensionalidade e investigar como o material se comporta frente à tensões nele empregadas e trabalhar os materiais afim de confundir os sentidos do espectador.

As peças Void Space e Complete Space (imagens acima), por exemplo, parecem muito pesadas, mas a artista logo mostra que, que, na verdade, produzidas em poliuretano expandido, são muito leves. Nestas peças, a organicidade da forma remonta à natureza, mas no entanto, apresentam-se em branco, artificiais, assim como a noção de peso conferida pela forma, que é apenas ilusória. 

Durante o evento de Ateliê Aberto, em que os residentes se dispõem a compartilhar os resultados de suas pesquisas com o público, a relação com a natureza no trabalho de Gabriella ficou ainda mais evidente.  No mural de referências que estavam em uma das divisórias do ateliê (segunda imagem da galeria abaixo), a oxidação do cobre aparecia em destaque, o que se converteu em um trabalho no qual a artista busca mimetizar esse fenômeno com tinta acrílica sobre o material. Outro trabalho que chamou atenção justamente por esse aspecto foi Aterramento: uma caixa transparente e hermética, na qual estão uma lâmina de cobre que foi manipulada até esta se assemelhar a uma pepita ou pedra que se encontra envolta, enterrada, em um material vegetal (ver imagem abaixo). 

Esta peça, além de remeter a um projeto ainda não realizado pela artista, - em que estacas de cobre, material conhecidamente condutor de energia, são fincadas ao solo, a fim de transmutar energia da terra para quem as toca -, remete mais uma vez ao natural: o material mineral, depois de extraído, processado, refinado e industrializado, retorna às suas origens.

Mas se no primeiro encontro no ateliê, Gabriella parecia ter um foco específico em esculturas, desta vez, me surpreendi ao ver algumas pinturas em tela. Na primeira visita, ela estava começando um trabalho em pintura e colagem em grandes proporções (ver segundo grupo de imagens do post) e além deste, a tela aparecia também como suporte de dois trabalhos, um na cor branco e um em cobre, em que um volume envolto em tecido parece  estrapola os limites da tela para ganhar o espaço e, no caso do trabalho em cobre, relacionarem-se entre si (ver imagens abaixo). 

Em um dos trabalhos desenvolvidos mais recentemente no ateliê, a tela recebe uma camada de tinta para se transformar em uma espécie de base para um elemento escultórico. Já em outro trabalho a tela é trabalhada bidimensionalmente, em uma abordagem mais tradicional, em tinta sobre tela com a adição de folhas de prata, o que diante dos outros experimentos, apresenta uma inovação no modo como a artista usa e trabalha a tela (ver segunda imagem da galeria abaixo). 

Ao meu ver, embora esta obra carregue muitos dos elementos que vêm sendo trabalhados pela artista, ela se difere dos outros trabalhos justamente por explicitar uma influência da experiência do ateliê. Entre os trabalhos apresentados, é perceptível um movimento oscilatório, um ir e vir, de graves e agudos, de suavidade e força, onde se percebe a diluição da tridimensionalidade, em escalas e graus diferentes, até chegar ao plano bidimensional e vice e versa. 

No post seguinte, falarei um pouco mais sobre a questão da influência do ateliê ao abordar o trabalho desenvolvido pela Giulia Puntel durante os 4 meses de residência do programa Pivô Pesquisa. 

Paula

ateliê aberto | pivô pesquisa | parte 2: giulia puntel

Esta é a segunda parte do post sobre a décima segunda edição do Ateliê Aberto, projeto de residência artística que acontece anualmente na Pivô e do qual participam as artistas Gabriella Garcia e Giulia Puntel.  No primeiro post, falei um pouco sobre o trabalho desenvolvido pela Gabriella durante a residência e agora, irei abordar o trabalho da Giulia, assinalando os pontos de contato entre as duas pesquisas. 

Tendo tido um primeiro contato com o trabalho das artistas durante o Pivô Convida, e depois, ao ver o resultado do período em que estiveram trabalhando no ateliê, ficou clara a influência que a experiência teve no trabalho de ambas. Embora não se conhecessem pessoalmente antes do Pivô Pesquisa, a convivência entre as duas parece ter sido muito prolífica e positiva. Se por um lado, a pintura bidimensional era praticamente ausente no trabalho da Gabriella, por outro lado, a tridimensionalidade não era uma característica presente no trabalho da Giulia. 

Desde que conhecemos a Giulia aqui pela plataforma, seu trabalho se modificou bastante. Seu repertório de imagens e referências construído a partir de filmes, fotografias, videos da internet e imagens do Instagram, em um primeiro momento da sua produção, era traduzido quase que a partir de reproduções integrais, de cenas "inteiras", por assim dizer. 

Quando fomos entrevistá-la aqui para o blog, Giulia já tinha começado a participar do Acompanhamento de Pintura, um grupo de estudos coordenado pelos artistas Regina Parra e Rodolpho Parigi e era bem visível a mudança que este processo alavancou em seu trabalho. O referencial imagético da artista começava a se traduzir em cenas de um imaginário distópico, de cenas desconstruídas, que instigavam o espectador a criar de uma narrativa própria, não linear. 

Do mesmo modo que em um determinado momento, foi visível a bidimensionalidade da Gabriella se metamorfosear no tridimensional, as cenas trazidas pela Giulia começaram a trazer uma certa fragmentação, uma "colagem de elementos" tendência que se expandiu e ficou mais evidente em dois dos trabalhos apresentados no Ateliê Aberto (ver galeria abaixo).

Dos trabalhos maiores com a ˜colagem" de elementos, Giulia se desloca às cenas "inteiras", como chamei anteriormente, mas desta vez em telas menores. Não são fragmentos e elementos agrupados o que vemos, e sim uma cena única, com um ou dois personagens. Mas dessa vez, é como se Giulia atuasse como diretora do nosso olhar e escolhesse um quadro de um filme e desse um zoom, enquadrando e chamando atenção do espectador para o que ela quer que seja visto na cena. 

Chama atenção a dupla de trabalhos em que são retratados dois rostos, que também aparentam ser parte de um todo, de uma cena maior, mas trazem a novidade de não se limitarem ao plano bidimensional da tela. As superfícies se contorce para ganhar tridimensionalidade e, suspensas por fios de arame na parede, remetem à obra Suspended Body, vista no ateliê da Gabriella. Uma das obras apresenta ainda mais uma singularidade e no trabalho da Giulia: uma tela de arame é justaposta à composição e criando uma assemblage (ver galeria abaixo).

Essa prática aparece ainda em outro trabalho, que traz duas tiras de chapa de cobre, provenientes do ateliê da Gabriella (segunda imagem da galeria abaixo), e que são fixadas à aresta superior de um suporte retangular de madeira, o qual recebe apenas uma faixa de tinta branca. A madeira, suporte utilizado pela artista em sua primeira pintura e nunca mais utilizado pela artista desde então, retorna ao trabalho de Giulia neste contexto de inserção de objetos achados ao acaso na obra e na prática artística.

Esses "objets trouvés" são assimilados pela artista e se inserem quase como objetos cenográficos na composição do espaço na ocasião do Ateliê Aberto, dois deles junto à mesa, com pães preparados pela própria Giulia e que eram oferecidos aos visitantes. A outra peça em madeira, pendurado por uma espécie de corda, retrata o que parece ser uma cabeça envolta em um saco opaco, talvez de tecido, tema sobre o qual temos alguma pista ao olhar os desenhos à lápis exibidos na parede logo à frente.

A mesma temática aparece em outra pintura, posicionada no espaço comum, dialogando com o trabalho de outros artistas participantes do ateliê, e que chama atenção não só porque se destaca das demais pinturas, seja pelas cores empregadas, seja pelo modo como os elementos estão retratados - o fundo menos sólido que nas demais pinturas, mais nebuloso talvez -, mas também pelo modo como esta se insere no espaço. Suspensa, evoca, mais uma vez, volume e a tridimensionalidade.

Por razões óbvias, tracei aqui um paralelo entre os trabalhos das duas artistas, os quais tenho mais proximidade, mas é claro que os trabalhos de todos os artistas devem ter exercido influência entre si, assim como as conversas com os curadores possivelmente os estimularam ainda mais a criar a partir de novas perspectivas.

Com estes dois posts, quis compartilhar minha percepção e livre interpretação acerca do que vi, e posso, inclusive, estar enganada quanto ao que as artistas se propuseram a pesquisar durante o período de ateliê. De todo modo, acompanhar um pouco mais de perto o trabalho das meninas e me propor a escrever sobre foi certamente uma das experiências mais bacanas do meu ano aqui na Piscina. 

Paula