Lina Bo Bardi: Habitat – Mulheres no MASP em 2019

Há três anos o Museu de Arte de São Paulo – MASP dedica sua programação de mostras e seminários a temáticas anuais. Em 2016 o museu apresentou Histórias da Infância, em 2017 Histórias da sexualidade, e em 2018, Histórias Afro Atlânticas, recorde de visitação e eleita Best in Show de 2018 pelo New York Times.

Em 2019, porém, o MASP se dedica às mulheres, com as Histórias das mulheres, histórias feministas. O ano se iniciou com duas individuais de artistas mulheres, Lúcia Laguna e Sonia Gomes, em um cruzamento das duas temáticas, fechando o ciclo das Histórias Afro Atlânticas e abrindo o Histórias das mulheres.

Depois das monográficas de Lucia e Sonia, foi a vez de Djanira da Motta e Silva e agora, em exibição até dia 28 de julho, estão as mostras Tarsila PopularLina Bo Bardi: Habitat. Em seguida, o MASP abrigará ainda as individuais de Anna Bella Geiger, Leonor Antunes e Gego, além de uma mostra coletiva internacional: Histórias das mulheres, histórias feministas.

Lina Bo Bardi: Habitat , vista da exposição, 2019. Foto:  ©  Eduardo Ortega – cortesia MASP.

Lina Bo Bardi: Habitat, vista da exposição, 2019. Foto: © Eduardo Ortega – cortesia MASP.

A obra de Lina me impactou de maneira bastante profunda nos primeiros anos da faculdade de Arquitetura e Urbanismo e não pude deixar de pensar que naquela época, não me dava conta sobre como nos carecem referenciais femininos (não só) na Arquitetura. Felizmente, acredito que estamos caminhando para um futuro de maior representatividade e igualdade neste campo, e meu otimismo me permite pensar que em todos os outros também.

Lina Bo Bardi: Habitat reúne fotografias, desenhos técnicos, desenhos, croquis e alguns móveis projetados por Lina para mostrar de maneira concisa o legado da arquiteta ítalo-brasileira como designer, curadora, editora, cenógrafa e pensadora da cultura de seu tempo. O título da exposição tem origem no nome da revista homônima, criada por Lina e Pietro e editada por eles entre 1950 e 1953, e que teve grande impacto na crítica de arte e arquitetura no Brasil, além de relacionar-se também com a prática projetual de Lina ao desenvolver seus emblemáticos edifícios, levando sempre em conta o meio no qual se inseriam e criando, através dos espaços, modos de habitar a cidade e a arquitetura.

Lina Bo Bardi: Habitat , vista da exposição, 2019. Foto:  ©  Eduardo Ortega – cortesia MASP.

Lina Bo Bardi: Habitat, vista da exposição, 2019. Foto: © Eduardo Ortega – cortesia MASP.

A curadoria da mostra é de Tomás Toledo, curador-chefe do MASP, Julieta González, diretora artística no Museo Jumex, na Cidade do México e José Esparza Chong Cuy, curador associado Pamela Alper do Museum of Contemporary Art Chicago. Depois da temporada em São Paulo Lina Bo Bardi: Habitat irá itinerar nestas duas instituições.

Dividida em três núcleos principais, a exposição começa pelo projeto do próprio MASP, desde sua primeira localização na Rua 7 de Abril, onde podemos ver desenhos e fotografias das primeiras expografias concebidas por Lina para as exposições do museu. Já neste primeiro momento, é visível a inovação presente nos projetos expográficos de Lina – revisitados pela gestão atual do museu –, bem como a preocupação que o casal Bardi tinha em pensar a instituição como um local que deveria cumprir também uma função didática e social.

Lina Bo Bardi: Habitat , vista da exposição, 2019. Foto:  ©  Eduardo Ortega – cortesia MASP.

Lina Bo Bardi: Habitat, vista da exposição, 2019. Foto: © Eduardo Ortega – cortesia MASP.

Além de realizar projetos expográficos, Lina atuou também como curadora em exposições e destaca-se aqui o pioneirismo da arquiteta em abordar nestas mostras a cultura popular Brasileira, com ênfase nas regiões norte e nordeste do país. Já em 1959, Lina realiza a exposição "Bahia no Ibirapuera", para a V Bienal de São Paulo; em 1963 funda o Museu de Arte Popular do Unhão, inaugurado com a exposição "Nordeste"; em 1969 inaugura o MASP da Avenida Paulista com a exposição A Mão do Povo Brasileiro, remontada novamente em 2016, e em 1988 organiza com Pierre Verger a exposição "África Negra".

Recentemente temos visto uma retomada de interesse pela cultura popular do Brasil e em especial pela região nordeste por parte de curadores e instituições, o que reitera o pioneirismo da atuação de Lina no campo cultural. Podemos citar aqui as mostras À Nordeste, em exibição no SESC 24 de Maio, com curadoria de Bitu Cassundé, Clarissa Diniz e Marcelo Campos; e Sertão, conceito que será explorado no 36º Panorama da Arte Brasileira do MAM-SP, com curadoria de Júlia Rebouças, a partir de agosto.

Lina Bo Bardi: Habitat , vista da exposição, 2019. Foto:  ©  Eduardo Ortega – cortesia MASP.

Lina Bo Bardi: Habitat, vista da exposição, 2019. Foto: © Eduardo Ortega – cortesia MASP.

No segundo núcleo, ‘Da Casa de Vidro à Cabana', fica ainda mais evidente a forte influência da cultura popular brasileira nos projetos arquitetônicos de Lina. Se o primeiro deles, a Casa de Vidro, concluída em 1951, carrega consigo todos os signos do modernismo europeu, uma forte influência da Bauhaus e a utilização de materiais industrializados, já em seu segundo projeto, a Casa do Chame-Chame (1964), Lina adota um partido arquitetônico que se afasta dos preceitos modernistas e principalmente apartir da década de 1970, passa a priorizar materiais e modos de construção vernaculares, como a madeira e a palha, além de incorporar referenciais da arquitetura indígena em seus projetos.

A incorporação de elementos e saberes populares aos projetos fazem um contraponto à elementos modernos como pode ser observado na Casa do Benin na Bahia, projeto de Lina realizado em parceria com o arquiteto Lelé Filgueiras, em que os pilares de concreto aparente são revestidos com um trabalho em palha trançada; e no projeto do MAM-Bahia, em que a escada de madeira com encaixes que remetem aos carros de boi, se destaca como elemento escultórico nem ao centro do museu.

Também são apresentados na mostra alguns projetos teatrais, além de cenografias e figurinos desenvolvidos por Lina, destacando-se aqui a prolífica parceria entre a arquiteta e José Celso Martinez, que culminou em seu último projeto construído: o Teatro Oficina, no qual toda a lógica tradicional de encenação do teatro, de palco-platéia é desconstruída em um espaço aberto e permeável e a partir do qual se pode ver a cidade.

Lina Bo Bardi: Habitat , vista da exposição, 2019. Foto:  ©  Eduardo Ortega – cortesia MASP.

Lina Bo Bardi: Habitat, vista da exposição, 2019. Foto: © Eduardo Ortega – cortesia MASP.

“A história do Brasil é uma história branca, ‘europeocentrista’ […], uma história branca que desconhece a contribuição da África, que ignora os índios - uma longa história de derrotas duma grande maioria por uma minoria.” - Lina Bo Bardi

O último núcleo da exposição é dedicado aos projetos de museus, construídos e não construídos, uma tipologia muito estudada por Lina, que , como dito anteriormente, tinha uma preocupação em pensar espaços que fossem além da concepção tradicional européia e elitizada do museu. Para ela, a dessacralização da arte, a integração e relação do museu com seu entorno, com a cidade, era fundamental.

Lina Bo Bardi: Habitat nos revela que o legado de Lina vai além de seus projetos arquitetônicos, dos objetos de design e da cenografia. Passadas mais de seis décadas, talvez seus questionamentos e seus ideais acerca de como podemos e devemos olhar para a arte e para nossa cultura, sejam ainda mais atuais que seus edifícios. Ao contrário da arquitetura, que perdura e resiste ao tempo, as ideias e o pensamento crítico parecem hoje carecer de mais esforços para se manterem de pé.

Paula

artistas-curadoras na 33a Bienal de São Paulo [série] - 1 de 4

Recentemente, a Fundação Bienal divulgou as propostas expositivas dos 7 artistas-curadores selecionados por Gabriel Pérez-Barreiro, curador da 33a edição da Bienal Internacional de São Paulo.

Em Afinidades Afetivas, título escolhido por Pérez-Barreiro para a Bienal, que tem abertura marcada setembro deste ano, a proposta curatorial busca valorizar a fruição individual das obras e não um recorte que direciona a uma compreensão previamente estabelecida. 

Para isso, o curador propôs 12 projetos individuais e 7 mostras coletivas organizadas por 7 artistas-curadores selecionados, que segundo ele, têm “total autonomia na concepção de suas mostras, tanto em relação uns aos outros quanto à curadoria geral. As únicas limitações impostas a eles foram de ordem prática, relativas a orçamento e ao uso do Pavilhão da Bienal”.

São eles: Aos nossos pais, de Alejandro Cesarco; sentido/comum  de Antonio Ballester; O pássaro lento de Claudia Fontes; Stargazer II [Mira-estrela II] de Mamma Andersson; A infinita história das coisas ou o fim da tragédia do um de Sofia Borges; Waltercio Caldas e Wura-Natasha Ogunji.

Cada vez mais interessadas na curadoria voltada às práticas de artistas mulheres, resolvemos apresentar em uma série de 4 posts aqui no blog, as propostas das artistas-curadoras convidadas, de modo a conhecer o trabalho delas e dos artistas que integram suas propostas expositivas.

Começaremos a série com O pássaro lento, proposta de Claudia Fontes, artista nascida em Buenos Aires (Argentina, 1964)  e que agora vive e trabalha em Brighton, Inglaterra. 
Através de sua obra Fontes investiga modos alternativos da percepção da cultura, natureza, história e sociedade que derivam dos processos de descolonização, sejam eles pessoais, interpessoais ou sociais. 

Em um de seus trabalhos mais recentes, uma instalação em grande escala para o pavilhão argentino na La Biennale di Venezia de 2017, estão representados em uma cena congelada, um cavalo, uma mulher e um jovem que lidam de maneiras diferentes com o mesmo paradoxo: uma crise se desenvolve e seus sintomas, são, ao mesmo tempo, o problema que os causa. The Horse Problem, é inspirado em ícones culturais do século XIX, sobre os quais a identidade cultural argentina foi artificialmente construída. Saiba mais sobre a obra aqui.

Já em sua proposta para a 33a edição da Bienal Internacional de São Paulo Fontes trata sobre a lentidão.  O ponto de partida de O Pássaro Lento surge quando a artista se pergunta sobre em qual situação um pássaro sentiria vertigem e para a artista, isso ocorreria quando a velocidade em que voa é tão lenta que corre o risco de cair.  Em contraponto ao fetiche moderno de velocidade, a artista e os artistas por ela convidados, e irão apresentar trabalhos de temporalidade expandida.  “[…] nossa espécie vem sendo treinada desde a infância para desprezar a vagarosidade e desejar rapidez. Como resultado, todos nós agora temos dificuldade de imaginar outros meios de estar consigo mesmo e com os outros”.

Com exceção de Roderick Hietbrink (Holanda, 1975), todos os artistas convidados irão desenvolver obras comissionadas especialmente para a ocasião: Ben Rivers (UK, 1972), Daniel Bozhkov (Bulgária, 1959), Elba Bairon (Bolívia, 1947), Katrín Sigurdardóttir (Islândia/EUA, 1967), Pablo Martín Ruiz (EUA, 1964), Paola Sferco (Argentina, 1974), Sebastián Castagna (Argentina, 1965) e Žilvinas Landzbergas (Lituânia, 1979).

Veja na galeria abaixo, uma seleção de trabalhos dos artistas:

exercício de curadoria: hysteria

A Hysteria é uma plataforma feita por mulheres, sobre mulheres e para mulheres, que a Piscina tem a honra de fazer parte. Durante todos os meses de 2018, a Piscina fará uma curadoria especial para o Instagram da Hysteria, com imagens de obras das artistas da Pisci, a partir de um tema proposto por nós. 

Em janeiro, o tema foi Corpo:

a dor, o dorso, a pele, o osso.
a carga de vida.

o corpo feminino se oferece à imagem: três poses.

e uma obra que, aqui, por contraste, parece comentar:

mas não esqueça do corpo da mulher padronizado, fragmentado, despersonalizado, substituível.

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E esta semana saiu o tema de fevereiro, Panorama:

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vastidão a ser explorada, vivida.
ver e ser o mundo através do seu próprio horizonte.
a linha
que separa o céu da terra, do mar.
a linha
que separa o resto do universo de si mesmo.
o horizonte-elástico
moldado pelo tempo, pelas circunstâncias.
ora se retrai e é tão restrito, ora se expande e ganha mundo.

 

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Estamos curtindo tanto o exercício e os temas que têm surgido, que a vontade é de desdobrar esta experiência em outras coisas, seja um fôlego, uma mini-publicação ou exposição. 

Tem sido muito bacana, no sentido de que nós três (Paula, Nataly e Ana) fazemos uma curadoria-relâmpago, o que nos interessa bastante como exercício. Tudo acontece online e à distância, o que lembra os primórdios da Piscina, em 2015, e já faz parte da essência do nosso projeto.