Lina Bo Bardi: Habitat – Mulheres no MASP em 2019

Há três anos o Museu de Arte de São Paulo – MASP dedica sua programação de mostras e seminários a temáticas anuais. Em 2016 o museu apresentou Histórias da Infância, em 2017 Histórias da sexualidade, e em 2018, Histórias Afro Atlânticas, recorde de visitação e eleita Best in Show de 2018 pelo New York Times.

Em 2019, porém, o MASP se dedica às mulheres, com as Histórias das mulheres, histórias feministas. O ano se iniciou com duas individuais de artistas mulheres, Lúcia Laguna e Sonia Gomes, em um cruzamento das duas temáticas, fechando o ciclo das Histórias Afro Atlânticas e abrindo o Histórias das mulheres.

Depois das monográficas de Lucia e Sonia, foi a vez de Djanira da Motta e Silva e agora, em exibição até dia 28 de julho, estão as mostras Tarsila PopularLina Bo Bardi: Habitat. Em seguida, o MASP abrigará ainda as individuais de Anna Bella Geiger, Leonor Antunes e Gego, além de uma mostra coletiva internacional: Histórias das mulheres, histórias feministas.

Lina Bo Bardi: Habitat , vista da exposição, 2019. Foto:  ©  Eduardo Ortega – cortesia MASP.

Lina Bo Bardi: Habitat, vista da exposição, 2019. Foto: © Eduardo Ortega – cortesia MASP.

A obra de Lina me impactou de maneira bastante profunda nos primeiros anos da faculdade de Arquitetura e Urbanismo e não pude deixar de pensar que naquela época, não me dava conta sobre como nos carecem referenciais femininos (não só) na Arquitetura. Felizmente, acredito que estamos caminhando para um futuro de maior representatividade e igualdade neste campo, e meu otimismo me permite pensar que em todos os outros também.

Lina Bo Bardi: Habitat reúne fotografias, desenhos técnicos, desenhos, croquis e alguns móveis projetados por Lina para mostrar de maneira concisa o legado da arquiteta ítalo-brasileira como designer, curadora, editora, cenógrafa e pensadora da cultura de seu tempo. O título da exposição tem origem no nome da revista homônima, criada por Lina e Pietro e editada por eles entre 1950 e 1953, e que teve grande impacto na crítica de arte e arquitetura no Brasil, além de relacionar-se também com a prática projetual de Lina ao desenvolver seus emblemáticos edifícios, levando sempre em conta o meio no qual se inseriam e criando, através dos espaços, modos de habitar a cidade e a arquitetura.

Lina Bo Bardi: Habitat , vista da exposição, 2019. Foto:  ©  Eduardo Ortega – cortesia MASP.

Lina Bo Bardi: Habitat, vista da exposição, 2019. Foto: © Eduardo Ortega – cortesia MASP.

A curadoria da mostra é de Tomás Toledo, curador-chefe do MASP, Julieta González, diretora artística no Museo Jumex, na Cidade do México e José Esparza Chong Cuy, curador associado Pamela Alper do Museum of Contemporary Art Chicago. Depois da temporada em São Paulo Lina Bo Bardi: Habitat irá itinerar nestas duas instituições.

Dividida em três núcleos principais, a exposição começa pelo projeto do próprio MASP, desde sua primeira localização na Rua 7 de Abril, onde podemos ver desenhos e fotografias das primeiras expografias concebidas por Lina para as exposições do museu. Já neste primeiro momento, é visível a inovação presente nos projetos expográficos de Lina – revisitados pela gestão atual do museu –, bem como a preocupação que o casal Bardi tinha em pensar a instituição como um local que deveria cumprir também uma função didática e social.

Lina Bo Bardi: Habitat , vista da exposição, 2019. Foto:  ©  Eduardo Ortega – cortesia MASP.

Lina Bo Bardi: Habitat, vista da exposição, 2019. Foto: © Eduardo Ortega – cortesia MASP.

Além de realizar projetos expográficos, Lina atuou também como curadora em exposições e destaca-se aqui o pioneirismo da arquiteta em abordar nestas mostras a cultura popular Brasileira, com ênfase nas regiões norte e nordeste do país. Já em 1959, Lina realiza a exposição "Bahia no Ibirapuera", para a V Bienal de São Paulo; em 1963 funda o Museu de Arte Popular do Unhão, inaugurado com a exposição "Nordeste"; em 1969 inaugura o MASP da Avenida Paulista com a exposição A Mão do Povo Brasileiro, remontada novamente em 2016, e em 1988 organiza com Pierre Verger a exposição "África Negra".

Recentemente temos visto uma retomada de interesse pela cultura popular do Brasil e em especial pela região nordeste por parte de curadores e instituições, o que reitera o pioneirismo da atuação de Lina no campo cultural. Podemos citar aqui as mostras À Nordeste, em exibição no SESC 24 de Maio, com curadoria de Bitu Cassundé, Clarissa Diniz e Marcelo Campos; e Sertão, conceito que será explorado no 36º Panorama da Arte Brasileira do MAM-SP, com curadoria de Júlia Rebouças, a partir de agosto.

Lina Bo Bardi: Habitat , vista da exposição, 2019. Foto:  ©  Eduardo Ortega – cortesia MASP.

Lina Bo Bardi: Habitat, vista da exposição, 2019. Foto: © Eduardo Ortega – cortesia MASP.

No segundo núcleo, ‘Da Casa de Vidro à Cabana', fica ainda mais evidente a forte influência da cultura popular brasileira nos projetos arquitetônicos de Lina. Se o primeiro deles, a Casa de Vidro, concluída em 1951, carrega consigo todos os signos do modernismo europeu, uma forte influência da Bauhaus e a utilização de materiais industrializados, já em seu segundo projeto, a Casa do Chame-Chame (1964), Lina adota um partido arquitetônico que se afasta dos preceitos modernistas e principalmente apartir da década de 1970, passa a priorizar materiais e modos de construção vernaculares, como a madeira e a palha, além de incorporar referenciais da arquitetura indígena em seus projetos.

A incorporação de elementos e saberes populares aos projetos fazem um contraponto à elementos modernos como pode ser observado na Casa do Benin na Bahia, projeto de Lina realizado em parceria com o arquiteto Lelé Filgueiras, em que os pilares de concreto aparente são revestidos com um trabalho em palha trançada; e no projeto do MAM-Bahia, em que a escada de madeira com encaixes que remetem aos carros de boi, se destaca como elemento escultórico nem ao centro do museu.

Também são apresentados na mostra alguns projetos teatrais, além de cenografias e figurinos desenvolvidos por Lina, destacando-se aqui a prolífica parceria entre a arquiteta e José Celso Martinez, que culminou em seu último projeto construído: o Teatro Oficina, no qual toda a lógica tradicional de encenação do teatro, de palco-platéia é desconstruída em um espaço aberto e permeável e a partir do qual se pode ver a cidade.

Lina Bo Bardi: Habitat , vista da exposição, 2019. Foto:  ©  Eduardo Ortega – cortesia MASP.

Lina Bo Bardi: Habitat, vista da exposição, 2019. Foto: © Eduardo Ortega – cortesia MASP.

“A história do Brasil é uma história branca, ‘europeocentrista’ […], uma história branca que desconhece a contribuição da África, que ignora os índios - uma longa história de derrotas duma grande maioria por uma minoria.” - Lina Bo Bardi

O último núcleo da exposição é dedicado aos projetos de museus, construídos e não construídos, uma tipologia muito estudada por Lina, que , como dito anteriormente, tinha uma preocupação em pensar espaços que fossem além da concepção tradicional européia e elitizada do museu. Para ela, a dessacralização da arte, a integração e relação do museu com seu entorno, com a cidade, era fundamental.

Lina Bo Bardi: Habitat nos revela que o legado de Lina vai além de seus projetos arquitetônicos, dos objetos de design e da cenografia. Passadas mais de seis décadas, talvez seus questionamentos e seus ideais acerca de como podemos e devemos olhar para a arte e para nossa cultura, sejam ainda mais atuais que seus edifícios. Ao contrário da arquitetura, que perdura e resiste ao tempo, as ideias e o pensamento crítico parecem hoje carecer de mais esforços para se manterem de pé.

Paula

ateliê aberto | pivô pesquisa | parte 1: gabriella garcia

No dia 11 de agosto, aconteceu a décima segunda edição do Ateliê Aberto, projeto de residência artística que acontece anualmente na Pivô e do qual participaram as artistas Gabriella Garcia e Giulia Puntel. 

Acompanhávamos o trabalho de ambas através do Instagram desde que elas começaram a fazer parte da Piscina, mas conhecemos pessoalmente primeiro a Gabriella, por ocasião da montagem e da abertura da exposição que fizemos ano passado na Galeria Recorte e mais tarde, conhecemos a Giulia quando demos início às entrevistas com as artistas, no final de 2017. 

Neste curto hiato de tempo, mesmo acompanhando virtualmente, era muito visível o amadurecimento do trabalho das duas e não foi tão surpreendente vê-las como participantes da residência da Pivô. Logo na primeira oportunidade de Conversa Pública, resolvi ver de perto o que elas estavam desenvolvendo. 

Embora tenha começado sua carreira artística com trabalhos essencialmente de colagem, Gabriella Garcia foi passando aos poucos do bidimensional para o tridimensional ao construir peças escultóricas que eram quase como assemblages e sobreposições de materiais, mas que ainda remetiam bastante à técnica anterior, nesse movimento "aglutinador" inerente da colagem, que sobrepõe e junta camadas. 

Mesmo já tendo visto online algumas das experiências de Gabriella com o tridimensional, fiquei surpresa ao ver uma certa influência cenográfica em seu trabalho, o que resultou em instalações, como a instalação Isso É O Que Acontece Quando Duas Substâncias Colidem feita para o Dekmantel Festival 2018; e em peças escultóricas que se inserem e se relacionam com seu entorno, como é o caso da Suspended Body (2018), peça em chapa metálica suspensa, desenvolvida para o ODD Fest, estrategicamente posicionada para vibrar e reverberar o som. 

Durante este primeiro encontro, me pareceu que a materialidade é central na pesquisa da artista e que durante o ateliê ela pode explorar questões como bidimensionalidade x tridimensionalidade e investigar como o material se comporta frente à tensões nele empregadas e trabalhar os materiais afim de confundir os sentidos do espectador.

As peças Void Space e Complete Space (imagens acima), por exemplo, parecem muito pesadas, mas a artista logo mostra que, que, na verdade, produzidas em poliuretano expandido, são muito leves. Nestas peças, a organicidade da forma remonta à natureza, mas no entanto, apresentam-se em branco, artificiais, assim como a noção de peso conferida pela forma, que é apenas ilusória. 

Durante o evento de Ateliê Aberto, em que os residentes se dispõem a compartilhar os resultados de suas pesquisas com o público, a relação com a natureza no trabalho de Gabriella ficou ainda mais evidente.  No mural de referências que estavam em uma das divisórias do ateliê (segunda imagem da galeria abaixo), a oxidação do cobre aparecia em destaque, o que se converteu em um trabalho no qual a artista busca mimetizar esse fenômeno com tinta acrílica sobre o material. Outro trabalho que chamou atenção justamente por esse aspecto foi Aterramento: uma caixa transparente e hermética, na qual estão uma lâmina de cobre que foi manipulada até esta se assemelhar a uma pepita ou pedra que se encontra envolta, enterrada, em um material vegetal (ver imagem abaixo). 

Esta peça, além de remeter a um projeto ainda não realizado pela artista, - em que estacas de cobre, material conhecidamente condutor de energia, são fincadas ao solo, a fim de transmutar energia da terra para quem as toca -, remete mais uma vez ao natural: o material mineral, depois de extraído, processado, refinado e industrializado, retorna às suas origens.

Mas se no primeiro encontro no ateliê, Gabriella parecia ter um foco específico em esculturas, desta vez, me surpreendi ao ver algumas pinturas em tela. Na primeira visita, ela estava começando um trabalho em pintura e colagem em grandes proporções (ver segundo grupo de imagens do post) e além deste, a tela aparecia também como suporte de dois trabalhos, um na cor branco e um em cobre, em que um volume envolto em tecido parece  estrapola os limites da tela para ganhar o espaço e, no caso do trabalho em cobre, relacionarem-se entre si (ver imagens abaixo). 

Em um dos trabalhos desenvolvidos mais recentemente no ateliê, a tela recebe uma camada de tinta para se transformar em uma espécie de base para um elemento escultórico. Já em outro trabalho a tela é trabalhada bidimensionalmente, em uma abordagem mais tradicional, em tinta sobre tela com a adição de folhas de prata, o que diante dos outros experimentos, apresenta uma inovação no modo como a artista usa e trabalha a tela (ver segunda imagem da galeria abaixo). 

Ao meu ver, embora esta obra carregue muitos dos elementos que vêm sendo trabalhados pela artista, ela se difere dos outros trabalhos justamente por explicitar uma influência da experiência do ateliê. Entre os trabalhos apresentados, é perceptível um movimento oscilatório, um ir e vir, de graves e agudos, de suavidade e força, onde se percebe a diluição da tridimensionalidade, em escalas e graus diferentes, até chegar ao plano bidimensional e vice e versa. 

No post seguinte, falarei um pouco mais sobre a questão da influência do ateliê ao abordar o trabalho desenvolvido pela Giulia Puntel durante os 4 meses de residência do programa Pivô Pesquisa. 

Paula

ateliê aberto | pivô pesquisa | parte 2: giulia puntel

Esta é a segunda parte do post sobre a décima segunda edição do Ateliê Aberto, projeto de residência artística que acontece anualmente na Pivô e do qual participam as artistas Gabriella Garcia e Giulia Puntel.  No primeiro post, falei um pouco sobre o trabalho desenvolvido pela Gabriella durante a residência e agora, irei abordar o trabalho da Giulia, assinalando os pontos de contato entre as duas pesquisas. 

Tendo tido um primeiro contato com o trabalho das artistas durante o Pivô Convida, e depois, ao ver o resultado do período em que estiveram trabalhando no ateliê, ficou clara a influência que a experiência teve no trabalho de ambas. Embora não se conhecessem pessoalmente antes do Pivô Pesquisa, a convivência entre as duas parece ter sido muito prolífica e positiva. Se por um lado, a pintura bidimensional era praticamente ausente no trabalho da Gabriella, por outro lado, a tridimensionalidade não era uma característica presente no trabalho da Giulia. 

Desde que conhecemos a Giulia aqui pela plataforma, seu trabalho se modificou bastante. Seu repertório de imagens e referências construído a partir de filmes, fotografias, videos da internet e imagens do Instagram, em um primeiro momento da sua produção, era traduzido quase que a partir de reproduções integrais, de cenas "inteiras", por assim dizer. 

Quando fomos entrevistá-la aqui para o blog, Giulia já tinha começado a participar do Acompanhamento de Pintura, um grupo de estudos coordenado pelos artistas Regina Parra e Rodolpho Parigi e era bem visível a mudança que este processo alavancou em seu trabalho. O referencial imagético da artista começava a se traduzir em cenas de um imaginário distópico, de cenas desconstruídas, que instigavam o espectador a criar de uma narrativa própria, não linear. 

Do mesmo modo que em um determinado momento, foi visível a bidimensionalidade da Gabriella se metamorfosear no tridimensional, as cenas trazidas pela Giulia começaram a trazer uma certa fragmentação, uma "colagem de elementos" tendência que se expandiu e ficou mais evidente em dois dos trabalhos apresentados no Ateliê Aberto (ver galeria abaixo).

Dos trabalhos maiores com a ˜colagem" de elementos, Giulia se desloca às cenas "inteiras", como chamei anteriormente, mas desta vez em telas menores. Não são fragmentos e elementos agrupados o que vemos, e sim uma cena única, com um ou dois personagens. Mas dessa vez, é como se Giulia atuasse como diretora do nosso olhar e escolhesse um quadro de um filme e desse um zoom, enquadrando e chamando atenção do espectador para o que ela quer que seja visto na cena. 

Chama atenção a dupla de trabalhos em que são retratados dois rostos, que também aparentam ser parte de um todo, de uma cena maior, mas trazem a novidade de não se limitarem ao plano bidimensional da tela. As superfícies se contorce para ganhar tridimensionalidade e, suspensas por fios de arame na parede, remetem à obra Suspended Body, vista no ateliê da Gabriella. Uma das obras apresenta ainda mais uma singularidade e no trabalho da Giulia: uma tela de arame é justaposta à composição e criando uma assemblage (ver galeria abaixo).

Essa prática aparece ainda em outro trabalho, que traz duas tiras de chapa de cobre, provenientes do ateliê da Gabriella (segunda imagem da galeria abaixo), e que são fixadas à aresta superior de um suporte retangular de madeira, o qual recebe apenas uma faixa de tinta branca. A madeira, suporte utilizado pela artista em sua primeira pintura e nunca mais utilizado pela artista desde então, retorna ao trabalho de Giulia neste contexto de inserção de objetos achados ao acaso na obra e na prática artística.

Esses "objets trouvés" são assimilados pela artista e se inserem quase como objetos cenográficos na composição do espaço na ocasião do Ateliê Aberto, dois deles junto à mesa, com pães preparados pela própria Giulia e que eram oferecidos aos visitantes. A outra peça em madeira, pendurado por uma espécie de corda, retrata o que parece ser uma cabeça envolta em um saco opaco, talvez de tecido, tema sobre o qual temos alguma pista ao olhar os desenhos à lápis exibidos na parede logo à frente.

A mesma temática aparece em outra pintura, posicionada no espaço comum, dialogando com o trabalho de outros artistas participantes do ateliê, e que chama atenção não só porque se destaca das demais pinturas, seja pelas cores empregadas, seja pelo modo como os elementos estão retratados - o fundo menos sólido que nas demais pinturas, mais nebuloso talvez -, mas também pelo modo como esta se insere no espaço. Suspensa, evoca, mais uma vez, volume e a tridimensionalidade.

Por razões óbvias, tracei aqui um paralelo entre os trabalhos das duas artistas, os quais tenho mais proximidade, mas é claro que os trabalhos de todos os artistas devem ter exercido influência entre si, assim como as conversas com os curadores possivelmente os estimularam ainda mais a criar a partir de novas perspectivas.

Com estes dois posts, quis compartilhar minha percepção e livre interpretação acerca do que vi, e posso, inclusive, estar enganada quanto ao que as artistas se propuseram a pesquisar durante o período de ateliê. De todo modo, acompanhar um pouco mais de perto o trabalho das meninas e me propor a escrever sobre foi certamente uma das experiências mais bacanas do meu ano aqui na Piscina. 

Paula

artistas-curadoras na 33a Bienal de São Paulo [série] - 1 de 4

Recentemente, a Fundação Bienal divulgou as propostas expositivas dos 7 artistas-curadores selecionados por Gabriel Pérez-Barreiro, curador da 33a edição da Bienal Internacional de São Paulo.

Em Afinidades Afetivas, título escolhido por Pérez-Barreiro para a Bienal, que tem abertura marcada setembro deste ano, a proposta curatorial busca valorizar a fruição individual das obras e não um recorte que direciona a uma compreensão previamente estabelecida. 

Para isso, o curador propôs 12 projetos individuais e 7 mostras coletivas organizadas por 7 artistas-curadores selecionados, que segundo ele, têm “total autonomia na concepção de suas mostras, tanto em relação uns aos outros quanto à curadoria geral. As únicas limitações impostas a eles foram de ordem prática, relativas a orçamento e ao uso do Pavilhão da Bienal”.

São eles: Aos nossos pais, de Alejandro Cesarco; sentido/comum  de Antonio Ballester; O pássaro lento de Claudia Fontes; Stargazer II [Mira-estrela II] de Mamma Andersson; A infinita história das coisas ou o fim da tragédia do um de Sofia Borges; Waltercio Caldas e Wura-Natasha Ogunji.

Cada vez mais interessadas na curadoria voltada às práticas de artistas mulheres, resolvemos apresentar em uma série de 4 posts aqui no blog, as propostas das artistas-curadoras convidadas, de modo a conhecer o trabalho delas e dos artistas que integram suas propostas expositivas.

Começaremos a série com O pássaro lento, proposta de Claudia Fontes, artista nascida em Buenos Aires (Argentina, 1964)  e que agora vive e trabalha em Brighton, Inglaterra. 
Através de sua obra Fontes investiga modos alternativos da percepção da cultura, natureza, história e sociedade que derivam dos processos de descolonização, sejam eles pessoais, interpessoais ou sociais. 

Em um de seus trabalhos mais recentes, uma instalação em grande escala para o pavilhão argentino na La Biennale di Venezia de 2017, estão representados em uma cena congelada, um cavalo, uma mulher e um jovem que lidam de maneiras diferentes com o mesmo paradoxo: uma crise se desenvolve e seus sintomas, são, ao mesmo tempo, o problema que os causa. The Horse Problem, é inspirado em ícones culturais do século XIX, sobre os quais a identidade cultural argentina foi artificialmente construída. Saiba mais sobre a obra aqui.

Já em sua proposta para a 33a edição da Bienal Internacional de São Paulo Fontes trata sobre a lentidão.  O ponto de partida de O Pássaro Lento surge quando a artista se pergunta sobre em qual situação um pássaro sentiria vertigem e para a artista, isso ocorreria quando a velocidade em que voa é tão lenta que corre o risco de cair.  Em contraponto ao fetiche moderno de velocidade, a artista e os artistas por ela convidados, e irão apresentar trabalhos de temporalidade expandida.  “[…] nossa espécie vem sendo treinada desde a infância para desprezar a vagarosidade e desejar rapidez. Como resultado, todos nós agora temos dificuldade de imaginar outros meios de estar consigo mesmo e com os outros”.

Com exceção de Roderick Hietbrink (Holanda, 1975), todos os artistas convidados irão desenvolver obras comissionadas especialmente para a ocasião: Ben Rivers (UK, 1972), Daniel Bozhkov (Bulgária, 1959), Elba Bairon (Bolívia, 1947), Katrín Sigurdardóttir (Islândia/EUA, 1967), Pablo Martín Ruiz (EUA, 1964), Paola Sferco (Argentina, 1974), Sebastián Castagna (Argentina, 1965) e Žilvinas Landzbergas (Lituânia, 1979).

Veja na galeria abaixo, uma seleção de trabalhos dos artistas:

exercício de curadoria: hysteria

A Hysteria é uma plataforma feita por mulheres, sobre mulheres e para mulheres, que a Piscina tem a honra de fazer parte. Durante todos os meses de 2018, a Piscina fará uma curadoria especial para o Instagram da Hysteria, com imagens de obras das artistas da Pisci, a partir de um tema proposto por nós. 

Em janeiro, o tema foi Corpo:

a dor, o dorso, a pele, o osso.
a carga de vida.

o corpo feminino se oferece à imagem: três poses.

e uma obra que, aqui, por contraste, parece comentar:

mas não esqueça do corpo da mulher padronizado, fragmentado, despersonalizado, substituível.

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E esta semana saiu o tema de fevereiro, Panorama:

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vastidão a ser explorada, vivida.
ver e ser o mundo através do seu próprio horizonte.
a linha
que separa o céu da terra, do mar.
a linha
que separa o resto do universo de si mesmo.
o horizonte-elástico
moldado pelo tempo, pelas circunstâncias.
ora se retrai e é tão restrito, ora se expande e ganha mundo.

 

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Estamos curtindo tanto o exercício e os temas que têm surgido, que a vontade é de desdobrar esta experiência em outras coisas, seja um fôlego, uma mini-publicação ou exposição. 

Tem sido muito bacana, no sentido de que nós três (Paula, Nataly e Ana) fazemos uma curadoria-relâmpago, o que nos interessa bastante como exercício. Tudo acontece online e à distância, o que lembra os primórdios da Piscina, em 2015, e já faz parte da essência do nosso projeto.

"Por que não houve grandes mulheres artistas?" de Linda Nochlin

Dentre outras coisas, aqui no blog da Piscina iremos compartilhar ensaios, artigos, livros e notícias que trocamos entre nós em nossas conversa online. Como muita coisa acaba se perdendo, resolvemos deixar algumas destas leituras reunidas e registradas aqui para que mais gente possa ter acesso e também para que nós possamos consultar eventualmente. A ideia é inclusive deixar o canal aberto para que amigas, conhecidas e artistas possam compartilhar suas leituras e que possamos criar um banco de textos relevante e acessível. 

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Para inaugurar o primeiro textos da Piscina, começaremos com o artigo Por que não houve grandes mulheres artistas?, de Linda Nochlin. Até maio de 2016, o texto escrito originalmente em 1971, na ARTnews, não tinha sido traduzido para o português. Felizmente, a edições Aurora editou e publicou o artigo, que teve tradução de Juliana Vacaro (autorizada e festejada pela autora).  

Em seu texto Linda Nochlin pontua que a pergunta "Por que não houve grandes mulheres artistas?" esconde a verdadeira natureza da questão e já pressupõe a própria resposta. Segundo a autora, nossa percepção de como as coisas são no mundo está condicionada e deturpada pela forma como enunciamos as questões e cabe a nós nos perguntarmos quem está formulando essas questões e a que propósito elas servem.

Deste modo a questão das mulheres nas artes não deve ser vista pelos olhos de uma elite dominante masculina, mas no lugar disso, "as mulheres devem se conceber potencialmente - se não efetivamente - como sujeitos iguais, e devem estar dispostas a olhar para os fatos de sua condição cara a cara, sem vitimização ou alienação".

Segundo Linda, de fato não houve nenhuma grande mulher artista como "não houve também nenhum grande pianista de jazz lituano ou um grande tenista esquimó, e não importa o quanto queríamos que tivesse existido. [...] não existem mulheres equivalentes a Michelangelo, Rembrandt, Delacroix, Cézanne, Picasso ou Matisse, ou mesmo nos tempos recentes a Kooning ou Warhol, assim como não há afroamericanos equivalentes aos mesmos." Se existissem, pelo que então as feministas estariam lutando?

As coisas nas artes e em outras áreas são desestimulantes e opressivas "para todos aqueles que, assim como as mulheres, não tiveram a sorte de nascer brancos, preferencialmente de classe média e acima de tudo homens", diz a autora. E o problema não estaria em nossos hormônios ou qualquer outro traço biológico ou psicológico, mas sim nas instituições e em nossa educação. 

As concepções falsas envolvidas na pergunta "por que não houve grandes mulheres artistas?" destacam suposições ingênuas e distorcidas sobre o fazer artístico, dentre as quais Linda aponta a mitologia do "Grande Artista", - o ser único, precoce, dotado de um grande talento e uma aura mágica -, como sendo uma das principais. Esse tipo de mitologia do gênio artístico deixa em segundo plano as influências sociais, contexto histórico e estruturas institucionais nas quais o artista tenha vivido e contribui para a "naturalização" da concepção de que a falta de êxito das mulheres nas artes se dá pois estas não possuem talento para a arte.

Caso fossem avaliadas as reais condições na qual a produção de arte se deu, perguntas mais interessantes poderiam ser feitas, tais como: de que classes sociais era proveniente a maior parte dos artistas em diferentes momentos históricos? Qual é a proporção de artistas que veio de famílias nas quais seus pais ou parentes próximos eram artistas? Por que  não houve grandes artistas oriundos da aristocracia? 

Considerando que as habilidades ou inteligências são construídas desde o momento em que uma criança vem ao mundo, caberia aos estudiosos e historiadores de arte abandonar a noção de que a grande arte provém do gênio individual com habilidades inatas e examinar que o contexto social e os elementos da estrutura social determinados por instituições específicas, pressupõem o desenvolvimento, a natureza e a qualidade do fazer artístico.  . 

Vale muito a pena a leitura! 

Você pode fazer o download do pdf ou adquirir a versão imprensa por apenas 8 reais aqui neste link

Paula